sexta-feira, 21 de julho de 2017

Memórias de um concurso público que me deixou lições para toda a vida




Por Marcos Mairton

Escrevo hoje sobre fatos que estão prestes a completar vinte anos, mas são muito presentes em minha memória. Além disso, podem servir de inspiração a quem enfrenta atualmente as batalhas do conhecimento nos concursos para cargos jurídicos, os chamados "concurseiros".
Em 1997, eu era advogado no Banco do Nordeste do Brasil, uma sociedade de economia mista, na qual trabalhava desde 1980. Emprego conquistado por concurso, aos quatorze anos de idade, no cargo de bancário aprendiz.
Havia percorrido todo um caminho do promoções e seleções internas, chegando a coordenador de uma equipe de advogados. Até que decidi buscar novos horizontes, e inscrevi-me em um concurso público para o cargo de Procurador do Banco Central do Brasil.
As vagas no Banco Central eram distribuídas por localidade, duas para Fortaleza.
- Só duas? - perguntou um amigo.
- É suficiente - respondi sorrindo. - Deixa o resto do pessoal brigar pela outra!
E comecei a estudar, item por item, o programa.
Tratava a dedicação ao estudo como um segundo emprego. Todos os dias. Com hora certa para começar e terminar. A diferença era que, nesse segundo “emprego”, ao invés de os sábados, domingos e feriados serem momentos de descanso, eram dias de carga horária dobrada.
Valeu a pena. Feitas as provas e publicado, algum tempo depois, o resultado, vi a brincadeira que houvera feito meses atrás tomar forma de profecia: no site do CESPE, meu nome era o único no espaço reservado aos aprovados para as vagas de Fortaleza; a outra vaga havia sobrado.
A história poderia ter terminado com esse final feliz, mas estava apenas começando. E começando de um jeito que eu jamais esqueceria.
Tendo ido dormir certo da aprovação, somente no dia seguinte percebi que havia sido aprovado apenas na prova objetiva, e não na subjetiva. Nesta, deixei de alcançar a nota necessária para atingir o perfil mínimo. Faltaram-me dezessete centésimos.
Isso mesmo, dezessete centésimos de ponto. Com um detalhe: a pontuação máxima da prova era 20, com um perfil mínimo de 10. Então, tendo feito 9,83 pontos, faltaram-me os fatídicos 0,17.
Se o leitor chegou até aqui, deve estar se perguntando: como assim? Era o que eu também me perguntava naquele dia. Longas foram as horas que se seguiram até que as cópias das planilhas de correção estivessem em minhas mãos. De posse do material, passei a oscilar entre a frustração e a incredulidade.
Eram apenas duas as questões da prova subjetiva. Os avaliadores consideraram que errei totalmente a primeira (resultado que até hoje não aceito) e atribuíram-me os dez pontos da segunda. Isso me garantiria a aprovação, não fosse pelos dezessete centésimos que me foram descontados, pelo que consideraram um erro de português.
O erro causador de efeito tão catastrófico? Eu escrevera “supra mencionado”. Assim mesmo, com o “supra” separado do “mencionado”.
Claro que eu sabia que se escreve “supramencionado” em uma palavra só. No rascunho havia escrito certo. Mas aquele era meu primeiro concurso jurídico, então achei que seria uma boa ideia escrever em rascunho e depois transcrever para a folha de respostas. Na hora de “passar a limpo”, por alguma razão, a cisão aconteceu. Surgiu um espaço entre o “supra” e o “mencionado”.
Recorri administrativamente, sustentei de várias formas que aquilo não chegava a ser um erro gramatical, mas somente o Judiciário acatou meus argumentos. Obtive medida liminar determinando minha nomeação e posse.
Surgiu daí um momento de difícil decisão: valeria a pena deixar o emprego público em uma entidade paraestatal, na qual havia entrado por concurso e construído toda uma história de dezoito anos? Não seria arriscado demais tomar posse no novo cargo, em caráter precário, como é próprio das medidas liminares?
Tentei algum tipo de afastamento temporário, ou uma forma de desligamento que me permitisse voltar ao cargo, caso a liminar fosse cassada, mas sem sucesso. Terminei pedindo demissão do BNB e tomando posse como Procurador do Banco Central no dia seguinte, em janeiro de 1998, por força de liminar.
Narro esses acontecimentos para compartilhar com os leitores - especialmente os concurseiros - o quanto foi frustrante tomar conhecimento da derrota, depois de haver comemorado a vitória. Ver escapar por entre os dedos a conquista. E, o que me parecia pior, ser derrotado por minha própria incompetência (ou pela arrogância de examinadores insensatos), e não para um concorrente mais preparado.
Mas, escrevo também, para dizer o quanto valeu a pena não me deixar dominar pela frustração. Seguir em frente, sem medo de enfrentar outras batalhas.
Correr o risco da posse precária talvez não tenha sido a opção mais sensata. Mas, no fim das contas, é provável que a condição “sub judice” - que me acompanhou durante toda a minha permanência no Banco Central - tenha sido um dos maiores incentivos para continuar estudando. Até com mais afinco. Não é nada agradável viver sob o risco da cassação de uma liminar que nos garante o emprego.
A aprovação em concurso para Advogado da União, e a posse no cargo, em fevereiro de 2000, puseram fim ao processo judicial - extinto por perda do objeto - e a dois anos de tensão. Quatorze meses depois, deixei a AGU para me tornar colega dos juízes federais cujas decisões me haviam proporcionado fazer aquela travessia.
De tudo isso, guardo a lição de que é preciso determinação na busca dos nossos objetivos. Não desanimar, quando as coisas parecerem não estar dando certo, nem permitir que a ansiedade tire nossa concentração do momento atual.
Aos que buscam o seu espaço através de concursos públicos, costumo dizer: não adianta ficar pensando se a prova vai ser difícil, nem se há muitos concorrentes; seu compromisso é estudar o mais detalhadamente possível cada item do programa.
E digo também que se acostumem a escrever sem ter que passar a limpo.
A verdade é que passei anos sem escrever a palavra “supramencionado”. Ainda hoje, não consigo escrevê-la sem lembrar de toda essa história.
P. S.: Ao narrar esses fatos, rendo homenagem a Romério Coelho Portela de Melo e Peter John Arrowsmith Cook Jr, meus colegas, procuradores do Banco Central, com quem pude contar nos momentos mais difíceis desse período da minha vida.

Supra-citado não, Excelência, supracitado!







 Uma das mais tormentosas questões para quem escreve em português é o uso correto do hífen. Este sinal gráfico (-), a que também se chama traço de união, é usado para pacificar os elementos de um composto, para que não vão a vias de fato. É utilizado para servir de conciliador a alguns prefixos e os demais elementos de uma palavra composta, prevenindo-se conflitos e mortes gramaticais, e é aplicado para separar as sílabas em final de linha, ou, ainda, para indicar os elos enclíticos e mesoclíticos.
Das hipóteses acima algumas são rigorosamente indolores e de facílima aplicação. Nem se necessita de anestesia. No entanto, quem quer que escreva precisa de arriscar-se a comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Refiro às palavras bem e mal e não exatamente à transgressão adâmica noticiada no Pentateuco. De fato, as palavras bem e mal têm temperamento irascível e exigem espaço exclusivo. São indomáveis. Para praticar o bem, deve verificar se se trata de palavra composta por aglutinação, caso em que não haverá hífen [benquisto, benfeitor]. Não sendo assim, convém recolher da árvore do conhecimento do bem e do mal alguns hífenes a serem usados em bem-estar, bem-vindo, bem-aventurança etc. E, para não parecer pessoa malcriada ou mal-educada, ou alguém que queira malferir o idioma, será bom saber que, após praticar o mal, usa-se o hífen em palavras começadas por vogal, h ou l, como nos exemplos “mal-humorado” e “mal-limpo” [VOLP da ABL].
Em “Deixem o hífen em paz”, trabalho disponível na internet [http://goo.gl/6lJHde], Wertheimer e Scarton lembram-nos didaticamente do que alguns dizem sobre o hífen: “foi nosso arquiinimigo, e continua sendo nosso arqui-inimigo” [sic].
Sem fugir ao tema, falemos de flores. Ah, as flores… Gosto delas. Outro dia, fui comprar umas e meti-me em apuro. Vi uns malmequeres lindos e pedi à vendedora duas dúzias deles. A florista, uma mui jovem senhora de uns oitenta anos de idade, não percebeu plenamente o que eu lhe pedira, e perguntou-me: “quer malmequeres ou bem-me-queres?”. Falava sério e tinha lá as suas razões. Para não criar desentendimentos com os defensores do Acordo Ortográfico de 1990, nem com os seus respectivos opositores, ela organizara na sua loja duas alas de prateleiras. Numa delas estavam todas as flores com os nomes anteriores ao Acordo Ortográfico, e que assim se mantiveram após a sua vigência; na outra, as de nomes alterados pelo Acordo. Respondi-lhe: “senhora, venda-me os mais baratos”, contudo, uns e outros tinham o mesmo preço. Eram iguais. Comprei-os e entrei numa livraria para adquirir logo uma gramática da língua portuguesa.
Antes de reformar-me, trabalhava na função pública e servia a um dos ramos da Justiça Federal. Lá, degustei sem sal e sem tempero muitos batráquios anuros vivos. Um dia, engoli um desagradável e irrequieto sapinho. Na qualidade de secretário de audiência, função que exercia ao tempo do episódio, deveria exarar em ata tudo o que me ditava o/a juiz/a. Assim, ao ouvir o que o/a magistrado/a dissera, eu digitei “supracitado”. Na altura, ele/ela exigiu-me enfaticamente intercalar um hífen a supra e a citado, para, enfim, chegar vitoriosamente ao “supra-citado”. Tudo isto audível e publicamente, claro. Sentindo-me qual verdadeiro iletrado, cumpri silente e fielmente o seu divinal e judicial mandado.
Com efeito, o Acordo Ortográfico andou a modificar as coisas. Mas, no caso do termo supracitado, em nada o afetou. A dúvida que tenho – e nem a poderia extirpar via embargos declaratórios, porque precluído o prazo processual – é se aquele/a magistrado/a já terá aprendido a escrever supracitado. Tê-lo-á? Insondável mistério!
Senhoras e senhores, façam as suas apostas. Dou-lhes uma…

Posted on 5 de Dezembro de 2016


Magno R Andrade
@magnoreisand – siga-me no Twitter





Magno Reis Andrade, protestante, brasileiro, nasceu em 17 de Junho de 1951, em Jequié, BA. Aos oito anos de idade, foi com os seus pais morar na capital baiana. Em 1969, foi admitido na Universidade Federal da Bahia, para, em 1973, bacharelar-se em Farmácia-Bioquímica. Com tal competência laborou até o ano de 1980, principalmente no Município de Bom Jesus da Lapa, BA. Lá, conheceu a sua futura esposa, a mesma que lhe daria as suas duas preciosas filhas. Em 1980, aceitou o desafio de trabalhar numa função pública municipal em Salvador, BA. Neste mesmo ano, ingressou no curso de Administração de Empresas, mantido pela Universidade Católica do Salvador, instituição que, em 1986, conferiu-lhe o respectivo grau de bacharel. Ainda em 1980, voltou à Universidade Federal da Bahia, para realizar o curso de Administração Pública, enfim, inconcluso por exiguidade de tempo. Mediante concurso público, em 1989 passou a exercer o cargo efetivo de Analista Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Quinta Região, BA. Ao se reformar em Novembro de 2010, exercia há sete anos as funções de assessor jurídico no Serviço de Análise de Processos Judiciais, unidade organizacional de direto apoio à Presidência do Tribunal trabalhista. Em 1990, retornou à Universidade Católica do Salvador, desta feita para, em 1995, obter o grau de bacharel em Direito. Entre os anos de 1970 e 1973, integrou profissionalmente o Madrigal da Universidade Federal da Bahia. Gosta de idiomas, ama a língua portuguesa.

sábado, 8 de julho de 2017

Nomes

Por Marcos Mairton

Às vezes fico observando os nomes das pessoas. Nunca me interessei por numerologia, mas, de vez em quando me pergunto: será que Napoleão teria sido quem foi se se chamasse Alberto? Ou Amarildo? E os meninos que depois foram chamados Napoleão? Sofreram ou sofrem alguma influência da personalidade daquele que fez famoso o nome? Joaquim teria se tornado o Mártir da Independência se não usasse a alcunha de Tiradentes? Zico teria sido tão bom jogador se houvesse permanecido Artur?
Em 1985, quando trabalhava no departamento de recursos humanos de um banco, participei da organização de um concurso para estagiários. Qual não foi a surpresa, minha e dos meus colegas de trabalho, quando percebemos que entre os inscritos havia dezenas de Robertos Rivelinos! Por quê? Porque o concurso era dirigido a jovens de quinze anos de idade, ou seja, nascidos em 1970. O que pretendiam os pais ao dar aos seus filhos o nome de um jogador da seleção brasileira tricampeã mundial? E, se o tricampeonato não houvesse sido conquistado, haveria tantos Robertos Rivelinos naquele ano?
São perguntas sem resposta. Mas, mesmo nomes que não nos remetem diretamente a pessoas de destaque acabam chamando a minha atenção. É que, apesar de os nomes próprios serem considerados pela gramática como substantivos, é fácil ver que há nomes que bem poderiam ser adjetivos ou verbos.
Por exemplo, Vilmar, Valdemar e Jair são nomes verbos. Verbos no infinitivo. Fernando, Orlando e Gumercindo também são verbos, mas são gerúndios. Maria é futuro do pretérito. Dirceu é pretérito perfeito. E Gilmara é pretérito mais que perfeito.
Alguns nomes adjetivos são fáceis de identificar. É assim com Prudente, Vicente e Amado, embora esse último possa ser um verbo no particípio. Outros nomes adjetivos são mais sutis, mas o leitor há de perceber como soa natural quando digo que meu vizinho “é um rapaz muito Sérgio”. Que “o ambiente estava um pouco Getúlio”. Ou que “meu professor de matemática é um rapaz Fábio”. E quem já não ouviu falar de uma mulher Amélia? Nomes adjetivos, sem dúvida.
Pode ser uma mania, pode ser apenas uma brincadeira, mas volta e meia me encontro refletindo sobre isso. Foi fazendo essas reflexões que percebi que meu nome não é adjetivo nem verbo. É substantivo mesmo.
Com o detalhe que, apesar de eu ser uma só pessoa, é um substantivo plural: Marcos.

Marcos Mairton

Escritor cearense, com vários livros publicados, membro fundador da Academia Quixadaense de Letras (AQL) e da Academia Brasileira de Cultura Jurídica (ABCJuris).
Twitter: @MarcosMairton

sábado, 17 de junho de 2017

Magno Reis Andrade

Hoje em homenagem especial
A um ser humano de verdade
Nem parece virtual
O amigo Magno Reis Andrade.

Que mundo fabuloso é esse, o virtual. Vicia-nos levando ao mundo inexistente das máscaras que usamos, alternadamente, no encanto e desencanto de um céu digital.

Nessa singela e espontânea mensagem, diferente em essência e estilo de tudo o que já escrevi ou falei, homenageio um aniversariante especial. Um amigo virtual que faz parte do meu mundo real.

Sim, ele é diferente: Não olha em meus olhos e vê meu coração; não percebe minhas lágrimas e sabe confortar-me. Tem comentários oportunos em momentos tão difíceis. É ou não é um amigo diferente? 
Hoje é o teu dia, Magno. Além dos bons fluidos que inundo essa mensagem, desejo que a reflexão de todos os momentos de um ciclo que se finda, seja a grande motivação das novas atitudes, ao que se inicia.
O que mais posso desejar a uma pessoa que considero linda, justa e solidária? 
Que sejas amado e lembrado por muitos, que tenhas surpresas agradáveis de todos os que te rodeiam e reconhecem como refúgio em dias de tempestades, ombro e colo em dias de lágrimas, arco-íris em dias negros e calmaria em dias atormentados.
Parabéns pelo teu aniversário! Comemore a maravilha de seres um alguém tão especial, maravilhoso e sem igual. Toma alegria, brinca à vontade, o que vale é a felicidade! 

Que Deus ilumine a tua estrada. Que proporcione as melhores caminhadas e que realize todos os teus sonhos.


Para mim és um presente,
Saúde, paz e siga em frente.
Ano que vem, tomara
Que estejas aqui com a gente!

Meu abraço.
A flor é virtual, mas o carinho é real.





sexta-feira, 16 de junho de 2017

ÁGUA NO POTE: UM SANTO REMÉDIO

Há muito deixei de comprar jornal editado em papel. Na forma tradicional, os jornais matutinos e/ou vespertinos têm apenas uma publicação diária, pois não seria razoável publicá-los em nova edição gráfica a cada fato emergente, por mais extraordinário que seja. Em qualquer das formas, não haveria mesmo demanda tão cativa para os absorver com tanta frequência, dada a profusão de portais noticiosos internéticos. Uma consulta à internet resulta ter mais praticidade e menor custo.
Nesse passo, sempre que vou ao computador, observo o que se está a publicar nos grandes portais noticiosos. Verifico o que está a dizer o brasileiro G1, onde por vezes divirto-me com as chamadas gramaticalmente ambíguas e/ou pessimamente redigidas, tanto quanto acedo aos lusitanos Diário de Notícias e Jornal de Notícias. É-me sempre proveitoso ler as crônicas ou artigos publicados nestes dois últimos, sendo-me impossível não aprender algo novo ao final dessas leituras. Do ponto de vista linguístico, fico a observar coisas interessantes, como, por exemplo, o fato de um bom articulista português que vivera alguns anos no Rio de Janeiro saber manejar com grande proficiência e correção a variedade europeia do Português – o que lhe é natural – a par de ocasionalmente deixar-se trair pelo brasileiríssimo gerúndio, ou involuntariamente grafar “ônibus” em detrimento ao seu “autocarro”.
No dia 12 de dezembro de 2015, publicou-se no Diário de Notícias: “Casados há 90 anos dizem que o segredo é “nunca discutir”” [http://goo.gl/ejGV1x]. Isto não é maravilhoso? Trata-se de um homem e uma mulher, ambos indianos e pleonasticamente casados entre si, residentes no Reino Unido, que parecem ter descoberto a chave da felicidade. Asseguram nunca terem travado fortes argumentações conjugais. De mim para mim, fico a pensar qual seria o verdadeiro nível de comunicação entre os dois. Seriam mágicos, hábeis telepatas ou o segredo estaria no pote? Explico-lhes.
Uma ovelha consultou o seu pastor à alegação de sofrer constantes e intencionais insultos maritais. Na versão da queixosa, a convivência com o seu marido estava insustentável, pois a cada provocação sofrida correspondia uma reação uxória, realimentando todo o circuito vicioso. O ministro ouviu-a atentamente, analisou a situação exposta e deu-lhe uma garrafinha contendo um líquido incolor, insípido e inodoro. Antes de se opor a qualquer ofensa, deveria ela deitar o líquido numa caneca, e com ele encher a boca sem o ingerir. Deveria repetir o procedimento a cada vez que o marido a importunasse.
A mulher seguiu à risca o aconselhamento pastoral. Com o passar do tempo, percebeu que estando com a boca cheia d´água era-lhe impossível dar adequada resposta aos desaforos do marido, como, por igual, sem a reação que o reanimava, ele foi aos poucos deixando de a molestar. Entretanto, um probleminha surgiu-lhe: o líquido acabara. Sem saber onde o comprar, aquela senhora voltou ao gabinete pastoral e, entusiasmada, disse ao ministro:
– Pastor, aquele líquido é muito bom. Depois que passei a usá-lo nunca mais tive discussões com o meu marido. E, olhe, ele também melhorou muito, está praticamente curado. Poderia dar-me mais uma garrafinha desse santo remédio?
Em resposta, o pastor perguntou-lhe se em sua casa havia um pote com água.
– Sim, pastor, nós o temos.
– Então está resolvido. O líquido que lhe dei é água. Pode usar a que está em seu pote.
É isto. Ela seguiu a prescrição pastoral e nunca mais tiveram confrontações, até os nossos dias.
Ah, “mutatis mutandis”, a receita pode ser usada pelos homens.
Magno R Andrade
@magnoreisand – siga-me no Twitter
Magno Reis Andrade, protestante, brasileiro, nasceu em 17 de Junho de 1951, em Jequié, BA. Aos oito anos de idade, foi com os seus pais morar na capital baiana. Em 1969, foi admitido na Universidade Federal da Bahia, para, em 1973, bacharelar-se em Farmácia-Bioquímica. Com tal competência laborou até o ano de 1980, principalmente no Município de Bom Jesus da Lapa, BA. Lá, conheceu a sua futura esposa, a mesma que lhe daria as suas duas preciosas filhas. Em 1980, aceitou o desafio de trabalhar numa função pública municipal em Salvador, BA. Neste mesmo ano, ingressou no curso de Administração de Empresas, mantido pela Universidade Católica do Salvador, instituição que, em 1986, conferiu-lhe o respectivo grau de bacharel. Ainda em 1980, voltou à Universidade Federal da Bahia, para realizar o curso de Administração Pública, enfim, inconcluso por exiguidade de tempo. Mediante concurso público, em 1989 passou a exercer o cargo efetivo de Analista Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Quinta Região, BA. Ao se reformar em Novembro de 2010, exercia há sete anos as funções de assessor jurídico no Serviço de Análise de Processos Judiciais, unidade organizacional de direto apoio à Presidência do Tribunal trabalhista. Em 1990, retornou à Universidade Católica do Salvador, desta feita para, em 1995, obter o grau de bacharel em Direito. Entre os anos de 1970 e 1973, integrou profissionalmente o Madrigal da Universidade Federal da Bahia. Gosta de idiomas, ama a língua portuguesa.

A flor também voou



Fui ao Cemitério Jardim da Saudade para despedir-me de um familiar a quem sou mui grato por ter-me ajudado numa importante fase da minha vida. Finda a solenidade fúnebre e consumado o próprio ato do sepultamento, quando, então, manifestaram-se os derradeiros cumprimentos de pesar ao cônjuge supérstite e aos filhos órfãos, deu-se a subsequente dispersão daqueles que compareceram em solidariedade à família enlutada.
Com toda a intrepidez, os raios solares incidiam sobre a nossa desprotegida pele. A temperatura ambiente estava alta, o calor, insuportável. Suávamos a cântaros. Ainda assim, aproveitei a oportunidade para ir ao túmulo no qual repousam os restos mortais da minha querida filha falecida prematuramente. Pretendia nele deixar algumas flores representativas da intensa saudade que me efervesce o âmago do ser. Na altura, enquanto deitava flores na lousa tumular, observei um numeroso bando de periquitos em destemidos sobrevoos acrobáticos, organizado em triangular formação, a se deslocar velozmente no ar ao provável comando dalgum periquito-mor, atrás do qual todos os demais se punham a voar ao sabor dos inesperados movimentos e das ordens superiores de última hora. Tais periquitos pareciam estar em exercício de adestramento aeronáutico, ou, quem sabe, talvez estivessem a ser avaliados com vistas a obter promoção na Força Aérea. Voavam a descrever grandiosas espirais ascendentes, seguidos de voltas completas no plano vertical, complementadas por repentinos mergulhos no ar, sempre a iludir-nos quanto ao exato instante em que pousariam nos topos das árvores. Chilreavam em metálica e desafinada polifonia, fingindo estar a formar um harmonioso conjunto coral. Em verdade, entretanto, agiam como se estivessem a discutir apaixonadamente o resultado do último dérbi em que o juiz deixou de validar um importante tento, tanto para frustração da equipa atacante, quanto para alívio da rival que esteve na iminência de ter violada a sua baliza.
Ao referir o belo espetáculo público a um dos prepostos do cemitério, dele ouvi que as tais manobras aéreas são comuns nesta quadra do ano. Segundo ele, as aves circulam incansavelmente de um lado a outro em busca do essencial alimento, e para elas o intangível horizonte era o limite. Expôs que nestas incursões de longo curso, quase transcontinentais, elas iam até às cercanias da distante Avenida Luís Viana, onde moro, faziam outras investidas e então retornavam ao ponto de origem no Jardim da Saudade.
O informador tinha razão. Ao alvorecer de cada dia, eu me ponho na varanda da minha casa, e lá fico a observar uns pontualíssimos periquitinhos em evoluções coreográficas altamente radicais, felizmente sem nenhuma notícia de acidentes aéreos, muito embora passem em altíssima velocidade por entre os diversos edifícios sem ao menos lhes tocarem.
Um dia desses, depois de muitas dessas manobras exibicionistas, o provável periquito-chefe empoleirou-se numa árvore, no que foi imediatamente imitado pelos seus obedientes subalternos. Uma breve pausa para meditação e refazimento de forças, e o chefão do bando achou por bem alçar voo sem nenhum aviso prévio. Sempre alerta, imediatamente os comandados fizeram o mesmo.
Nesta última revoada, certamente iriam retornar ao campo-santo. Se tivessem vindo à minha varanda, eu lhes teria rogado que me fizessem a caridade de levar-me uma flor ao Jardim da Saudade. Eu até lhes recompensaria pelo serviço.
Entanto, os finórios fizeram de conta que nem me viram. Indiferentes a voar céu afora, foram-se embora, sumiram. E eu, em pleno desalento, a remoer o pensamento, ortostaticamente estagnado na varanda do meu apartamento, tendo às mãos aquela flor a simbolizar o amor que pela minha filha fervilha, deitei-a abaixo, soltei-a ao vento. Nessa hora, enquanto o meu coração chora e lateja, a tênue flor fraqueja a despetalar-se em lento bamboleio, quase a cindir-se ao meio sem forças para subir. Assim mesmo, o quanto pode ainda plana, plana em voo a esmo até sumir.
Magno R Andrade
@magnoreisand – siga-me no Twitter 
Magno Reis Andrade, protestante, brasileiro, nasceu em 17 de Junho de 1951, em Jequié, BA. Aos oito anos de idade, foi com os seus pais morar na capital baiana. Em 1969, foi admitido na Universidade Federal da Bahia, para, em 1973, bacharelar-se em Farmácia-Bioquímica. Com tal competência laborou até o ano de 1980, principalmente no Município de Bom Jesus da Lapa, BA. Lá, conheceu a sua futura esposa, a mesma que lhe daria as suas duas preciosas filhas. Em 1980, aceitou o desafio de trabalhar numa função pública municipal em Salvador, BA. Neste mesmo ano, ingressou no curso de Administração de Empresas, mantido pela Universidade Católica do Salvador, instituição que, em 1986, conferiu-lhe o respectivo grau de bacharel. Ainda em 1980, voltou à Universidade Federal da Bahia, para realizar o curso de Administração Pública, enfim, inconcluso por exiguidade de tempo. Mediante concurso público, em 1989 passou a exercer o cargo efetivo de Analista Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Quinta Região, BA. Ao se reformar em Novembro de 2010, exercia há sete anos as funções de assessor jurídico no Serviço de Análise de Processos Judiciais, unidade organizacional de direto apoio à Presidência do Tribunal trabalhista. Em 1990, retornou à Universidade Católica do Salvador, desta feita para, em 1995, obter o grau de bacharel em Direito. Entre os anos de 1970 e 1973, integrou profissionalmente o Madrigal da Universidade Federal da Bahia. Gosta de idiomas, ama a língua portuguesa.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O Assassino era o escriba


Como em todos os seus trabalhos, Paulo Leminski esbanja conhecimento, coerência e muito humor neste texto criativo e bem divertido. Saber jogar com as palavras é tarefa para poucos. Uma lição em cada frase.

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjunção.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido na sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.


Paulo Leminski

sexta-feira, 5 de maio de 2017

"Qualquer coisa, estamos aqui"

Pai, você se foi. Partiu silenciosamente no mais profundo sono que alguém pode ter. Tenho vivido dias cinzentos e noites escuras. E por mais que eu me esforce, por mais que eu busque vocábulos apropriados para homenageá-lo, permaneço emudecida e desnorteada. Insisto em demonstrar todo o meu sentimento em palavras, mas a tua grandeza nega-me o vocabulário apropriado, capaz de expressar a profundidade da minha dor.
Pai, você é TUDO de um TUDO que eu não soube dizer.
Todo o meu carinho. Todo o meu amor.
Zilda Carloni

Ainda bem que o seu neto mais velho, aprendeu a fotografar e revelar todos os tipos de sentimentos... e fala por mim.

"[JUSTIÇA INJUSTA]

Justo a mim, cheio de defeitos, coube-me o privilégio desmedido de ser neto de um homem como meu avô.
Justo a mim, incrédulo convicto, coube-me a pecha de receber numerosos consolos de cunho religioso.
Justo a mim, tão displicente, coube-me a culpa de não tê-lo visitado recentemente.
Justo a mim, que tem plano pra tudo, coube-me a revolta de não ter planejado este dia.
Justo a mim, tão ligado à família e amigos, coube-me o peso de não haver me despedido de figura TÃO importante.
Justo a mim, tão "durão", coube-me enfrentar tanta lágrima (própria).
Justo a mim, tão conectado com as palavras, coube-me o dissabor de não tê-las usado enquanto ele ainda as podia ouvir.
Justo a mim, tão avesso a velórios, coube-me a desgraça de ter que encarar o dele.
Justo a mim, que já tinha o feriado egoistamente planejado, coube-me ter que revirar tudo em cinco minutos e partir para nosso último e triste encontro.
Justo a mim, que sempre ri da sua filosofia dos "seis amigos", coube-me, chorando, a sexta (e apertada) alça do seu caixão.
Justo a mim.
Justo a mim, pelo lado oposto deste prisma - agora - maldito, couberam-me incontáveis tesouros durante nossa convivência de quase quarenta anos.
A mim me cabe então agradecer (agora, só em pensamento...) por cada dedo de prosa, por cada exemplo, por cada sorriso, por cada piada, por cada conto repetido (que ele sabia que já havia contado), por cada presente, por cada presença, por cada noite de pagem, por cada ajuda, por cada sopinha de pão, por cada palavra quando vivi fora, por cada "fica com deus", por cada "tudo de bom pro ceis tudo", por cada "eles que se fodam", por cada "quando que ceis vem?", por cada "tissurim", "cutis cus cuti" ou "bosta na caneca", por cada "ceis deixa eu quieto!", por cada funcionário que o senhor preparou, por cada ensinamento de humanidade, por cada ser humano que o senhor ajudou, por cada elogio ao Silvio Santos, por cada crítica (correta) ao "futebor", por cada pedaço de lixo que o senhor transformou em algo útil, por cada planta que o senhor cultivou, por cada animal que o senhor criou, por cada demonstração de destreza no uso de ferramentas, por cada doação, por cada dica ao volante, por cada relógio acertado com o 102, por cada burro amansado e cavalo domado, por cada gesto humilde, por cada vez que o senhor ouviu desaforos sem rebater, por cada exemplo (de novo, são muitos...), por cada abraço, por cada beijo molhado vindo daqueles beiços propositadamente projetados à diante, por cada tijolo da Catedral mais linda do país, por cada gesto de carinho com as minhas filhas - suas bisnetas, por cada colo oferecido, por cada pose pra foto, por ter batizado a Giulia, por cada passo na direção certa e - não que a lista pudesse terminar - por cada minuto de dedicação, amor, carinho, apoio e respeito à minha avó, a quem caberá o maior vazio deste universo, após quase setenta anos juntos.

Justo a mim, que não sei dizer para onde estarás indo, avô querido, cabe-me o dever de enxugar as lágrimas e continuar seguindo teus brilhantes passos.
Ainda que "tardio", eu te amo. Teu modelo está impregnado em mim para sempre.
Ah, se der, vô, desculpe-me novamente por aquela costela trincada! Foi sem querer, apertei de saudade. :(
Disseram-me que os avós não morrem, mas que eles apenas se escondem. Se for verdade, farei de tua tarefa (a da auto-ocultação) um "inferno".

[no dia desta foto ele completava 88 anos (fev/16) - estava feliz com a casa cheia - e me dava outra lição de moral. Aprendeu o que era uma selfie, demos risada, mas não perdeu a oportunidade de dizer que meu pescoço estava parecendo um tronco de mandioca, de tão largo...]"

Guilherme Carloni 30/04/2017

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Feliz 89, Pai!

Feliz 89, Pai!
Que o sol brilhante de todos os dias, esteja muito mais intenso hoje, para alegrar o seu semblante;
Que o seu sorriso irradie toda a paz e serenidade que lhe desejo; 
Que não lhe faltem homenagens e mesmo sendo infinitas, serão sempre poucas para um homem que merece todas as honras.

Nossa história é longa e eu jamais poderia lhe prestar uma homenagem à altura. Hoje completamos 59 anos de amor. É a data especial em que comemoramos o nosso aniversário e a renovação da fase que queremos (e teremos) muitas alegrias.

Pai, obrigada por todos os conselhos e cuidados ao longo da minha vida. Falar do seu caráter imutável e sua dignidade sempre me emociona muito, pois você é o homem de quem mais me orgulho e os seus exemplos estão tatuados em mim. Sou filha de incontáveis bons exemplos e indescritível generosidade.

Esse ano não pude estar com você, mas não existe distância que não possa ser alcançada pelo amor. Estamos juntos na gratidão a Deus pela boa vida que temos, e eu, pelo privilégio inexplicável de tê-lo como PAI.

Desejo que esta data nos traga, a cada ano, mais saúde, amor, fé, esperança, prosperidade e sabedoria. Estarei sempre ao seu lado para sorrir, comemorar, chorar e te acalmar, incondicionalmente.

Parabéns para nós.
Você sempre foi, é, e será o meu maior e melhor presente.
Com todo amor, meu abraço do tamanho do mundo.

Buon compleanno Papà, vi auguro tanta felicità e molti anni di vita.
Tanti baci

quarta-feira, 16 de março de 2016

X-TUDO

Longe, mas muito longe, de querer escrever algo que seja definitivo ou convincente e arrebatador, arrisco-me em meio a tantos cientistas políticos, jornalistas, historiadores, gente com bastante experiência sócio-política, antropólogos, etc., sem qualquer pretensão mais específica ou procuração de ninguém, a discorrer sobre os principais pensamentos que habitam minha cabeça durante os últimos dias; influenciado, sobretudo, pelas manifestações do último Domingo, onde estive. Considere-se que momentos de grande comoção tendem a gerar reflexões, textos e conclusões demasiadamente maculados pela emoção. Não que tal viés seja errado ou reprovável, mas é um risco que precisa ser conhecido e, se possível, controlado.

Era Domingo, 13 de março de 2016, quando o Brasil se viu diante da maior manifestação pública e de cunho político de sua história. A mobilização popular começou cerca de 40 ou 50 dias antes, talvez um pouco menos. Foi tomando corpo, principalmente, através das redes sociais e ganhou muita força à medida que alguns fatos foram se sedimentando na operação Lava Jato, especialmente em suas últimas duas semanas. Dois ou três destes episódios, sugerem-se, tiveram papel bastante relevante: a publicação da delação do ex-senador petista e ex-líder do PT no governo, Sr. Delcidio Amaral (atualmente preso), na qual Lula, Aecio Neves e outras figuras públicas foram acusadas de receber ilicitamente dinheiro e/ou bens de empreiteiras, o depoimento do ex-presidente Lula à Polícia Federal (em 04/março), quando fora interrogado sobre o já famoso apartamento de três andares do Guarujá e, finalmente, suas próprias palavras ao sair da PF e se dirigir à sede do PT em SP, horas depois. Abre parênteses: fala esta (ele não se deixa interrogar) que misturou emoção, sarcasmo e deboche, voltada a seus correligionários, em qual as acusações contra ele eram solenemente ignoradas e substituídas pela oportunidade de se vitimizar, colher aplausos e tentar inflamar os seus seguidores, incitando-os à luta. Orador mestre que é, não deixou a chance lhe escapar. Autopropagandeou-se à exaustão. No mesmo dia, tivemos o vazamento do vídeo da deputada Jandira, que filmou Lula, inadvertidamente, minutos antes do referido pronunciamento, em conversa telefônica com a presidente Dilma, dizendo palavras não muito bonitas – supostamente – referindo-se a promotores e delegados do processo que o acusa. E mais gente se motivou a participar no dia 13 de março. Fecha parênteses.

Por diferentes motivações – mais diferentes do que eu poderia tentar imaginar, mesmo com muito esforço –milhões de pessoas decidiram ir às ruas. Eu, como já disse, fui um deles e, mais adiante, tentarei esclarecer meus porquês. A temperatura naquele início de tarde na capital paulistana era amena e, mesmo em época de fortes chuvas, não se viu uma única gota. Não fosse assim, imagino que a adesão pudesse ter sido muito menor.

Registros divulgados até aqui, dão conta de que houve passeatas em 240 cidades do país. Dependendo da fonte ou da metodologia de estimação, o número total de participantes esteve entre 3.0 e 6.5 milhões, sendo 500mil a 2.0 ou 2.5 milhões – talvez a metade – só na av. Paulista, em São Paulo. Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Manaus, Porto Alegre, Curitiba, Goiânia, Florianópolis – entre todas as outras – inteiram a conta.

Enquanto a organização dos eventos se põe em acordo com a Polícia e demais instituições sobre o número de pessoas que estiveram presentes nas marchas, posso dizer que estar na maior e mais numerosa delas foi revelador. Se, por um lado, minha vontade de gritar apartidariamente pelo Brasil (e fazer boas fotos!) se fez válida e presente, por outro, fazê-lo ao lado de alguns grupos, ideologias, cartazes e pessoas específicos, deixou-me, se não outro, embasbacado. Colocando de maneira clara, não compactuo com tudo que vi. A minha voz não era a mesma do que “qualquer outra” ali e eu não buscava exatamente o que “qualquer um” daquela avenida buscava. Eram muitas demandas misturadas. Tanto que manifestação “da elite” ou “dos coxinhas”, como sugerem os defensores mais ferrenhos do PT, assemelhava-se muito mais com um x-tudo; sanduíche com vários tipos de recheio que, no final, não se conformam em um gosto único.

A coerência, por exemplo, não parece ter sido, de novo, vedete nas tantas ruas coloridas de verde e amarelo. Senão, como explicar a imensa quantidade de gente ostentando a logo da CBF no peito? Deu vergonha.

E os milicos reformados, discursando em carros de som? Eu respeito. Eu ouço e até tolero, como cidadão do bem (e curioso) que sou. Mas uma intervenção militar é, na minha opinião, a última coisa que o país precisa. Seria a falência de um jovem regime democrático que vem se construindo – como falhas, diga-se – ao longo das últimas décadas. Imaginem-se, de repente, vivendo à margem de todas as conquistas de liberdade conseguidas até aqui. Não.

Quem foi, viu de perto, por exemplo, dois medalhões do principal partido oposicionista serem praticamente enxotados da avenida Paulista. Geraldo Alckmin e Aecio Neves que, em teoria, deveriam ter sido bem recebidos e, talvez, até aclamados por sua (fraca) postura de oposição. Foram com intenção de discursar, mas não conseguiram chegar a um dos caminhões de som. As pessoas entenderam que a corrupção permeia – arrisco – toda a classe política nacional e parecem ter reagido unissonamente a tal. E de forma a não deixar dúvidas: o que estava em jogo ali não tinha legenda, era algo maior.

Quem foi, viu e ouvi as vaias aos discursos dos igualmente oportunistas Levi Fidelix e Silas Malafaia. Foi ficando, a cada minuto, mais claro que o fato de ir ou discursar não bastava. Era preciso representar muita gente e não estar associado a qualquer ideologia menos inclusiva, retrógrada ou ainda a legendas e preceitos não totalmente democráticos.

Quem foi, viu também que debate racial que tomou conta das redes sociais logo depois das manifestações, por conta de uma fotografia de um casal na passeata do Rio de Janeiro, seus dois filhos e a babá (negra), foi uma grande bobagem. Alegavam que aquela seria a única ou uma das únicas negras no manifesto e que ela não estivesse ali por vontade própria, na tentativa de desclassificar a representatividade dos participantes da manifestação. Havia negros, sim. De forma não intencional, eles estão em muitas das fotos que fiz, no meio da multidão, ocupando espaço livremente, como qualquer um dos demais cidadãos. Assim como todos os sexos e opções sexuais estavam representados. Diversas culturas e religiões – vi uma turma de turbante e uma “legião da ordem”, em paletó e gravata. Idosos, muitos idosos! Crianças, cães e babás (vi pouquíssimas). Muitos ciclistas. Tribos das mais diferentes. Tinha gente mais fervorosa e gente mais calma. Gente que foi para falar sério e gente que foi para festejar; acontece. Teve muita selfie e teve selfie com policial. Não gosto de nenhuma, mas é preciso respeitar! Havia famílias demais, todos juntos em prol de seu algo. O curioso, mas não tanto, foi notar que todos os comentários maldosos sobre as etnias das passeatas saíram de gente que não esteve nelas. São, via de regra, as mesmas pessoas que questionam a credibilidade da mídia. Vida que segue!

Não seremos um país melhor enquanto não aprendermos a lidar civilizadamente com o trânsito. Não seremos um país melhor enquanto a vontade individual guiar as ações coletivas – e não o contrário. Não seremos um país melhor enquanto houver desrespeito a classes, gêneros, credos e/ou opções sexuais. Não seremos um país melhor enquanto houver gente furando fila, pagando propina, clonando cartão, burlando rodízio de placas, roubando sinal de TV e outros serviços, inventando recibo para imposto de renda, fomentando comércio de produtos-pirata e/ou fazendo uso de tantas outras traquitanas que, por vezes, nos (des)classificam em comparações com outros povos. Se há algo que eu não acho bonito é o tal “jeitinho brasileiro” – sem hipocrisia.

Analogamente, não seremos um país melhor “apenas” por que milhões de pessoas foram para as ruas em 13/03 ou irão em 18/03 e outras datas, a favor de qualquer lado que seja. As manifestações – sobretudo as pacíficas, como têm sido as últimas e torço pelas próximas – são uma bela ilustração da democracia, mas não credenciam seus participantes a nada e, pelo exposto, precisam ser entendidas com um pouco mais de detalhes.
Não se sabe o que será do nosso país no futuro próximo, mas algumas torres parecem abaladas à la Pisa.
Impeachment? Impugnação da chapa eleita? Renúncia? Prisões? Novas eleições? Assume o Cunha? O Temer?    

Na conturbada situação política em que se encontra nosso Executivo Federal, há vários caminhos de solvência. Cada um, logicamente, com suas consequências, seus prós, contras e, claro, com maior ou menor probabilidade de ocorrência. O que parece não ter solução é a falta de autocrítica e decorrentes medidas corretivas por parte do governo do país. Pelas últimas declarações, parece que a crise – a eles – nem existe. A tal governabilidade que não marca presença, desde há uns meses, faz cada dia mais falta. Um paradoxo para lá de interessante já que este seria, na visão de muitos, um momento crucial para uma verdadeira reviravolta administrativa. Seria deveras convincente, entre todos os demais benefícios, se as rédeas do país voltassem a ser levadas por pulsos firmes. Entretanto, para aprofundar a partir daqui, seria preciso transcorrer sobre (além da conhecida falta de auto reconhecimento) a capacidade de liderança e alianças da presidente Dilma, duas pilastras construídas com areia seca em seu governo.

Respeitando-se as condições normais de temperatura e pressão, as CNTP, expressão clássica na Física e na Química para, resumidamente, buscar excluir agentes externos de uma análise, consigo imaginar as seguintes hipóteses de solução: [a] nada acontece e a presidente Dilma segue seu mandato até 2018 (seja pela derrota do pedido de impeachment, seja pela sua simples não votação), [b] o pedido de impeachment é votado “sim” na Câmara e Senado (assumiria o vice-presidente, Michel Temer), [c] a chapa PT-PMDB é destituída do cargo por impugnação atribuída a qualquer irregularidade na campanha (aqui, abrem-se duas rotas: se ocorre ainda em 2016, haveria novas eleições; se, em 2017 ou 2018, o Congresso nomearia um presidente interino, que governaria até o fim de 2018) ou [d] a presidente Dilma renuncia ao cargo (assumiria o vice-presidente).

Não há solução ideal, note-se. A menos pior, a meu ver, pareceria ser a manutenção do governo até o término do seu mandato – buscando-se, ao máximo, que o governo siga caminho independente dos investigados na operação Lava Jato e lute veementemente pelas reformas das quais carece tanto a nação. Válido somente até quando outros membros da administração pública federal forem eventualmente arrolados nos processos, furando as CNTP.

Qualquer que seja a saída, é certo que ela impactará a sociedade nos próximos anos. Tal iminência já seria, per se, motivo razoável para incentivar as pessoas a se envolver e tentar fazer parte da solução. Menos frustração, esperar-se-ia, em seguida. A história mostra ainda que os momentos mais críticos e de ruptura nas sociedades exigem posicionamentos claros das pessoas, que elas sejam francas consigo e com os demais, assumindo um lado pelo bem de todos. Aparentemente, as vésperas da possível votação de um provável processo de impedimento de nosso governo não deixam margem para a omissão e a falta de opinião. As pessoas foram, então, às ruas. Motivadas pelo fim da corrupção, para requerer soluções que nunca chegam, para exigir a prisão do Lula ou para se posicionar contra a situação (em qualquer aspecto). Há que se ressalvar, entretanto, que “assumir um lado” não significa, como adoram martelar os governistas mais fanáticos, agarrar-se e/ou concordar necessariamente com o outro. O princípio da dualidade não pode ser tão levianamente utilizado. A polarização da argumentação é reles, é fraca e tem intuito diruptivo, não construtivo. Assim sendo, se você não é capaz de enxergar as nuances que existem – e hão de existir! – entre um lado e o outro, num cenário tão complexo como este, é recomendável que você não entre em uma discussão. A menos que seu intuito seja brigar.

Eu quero, como você quer e como – suponho – todos os brasileiros querem, um país melhor. Uma vida mais digna e cheia de possibilidades isonômicas a todos. Mínima diferença social. Máxima segurança e distribuição de cultura. Uma Saúde robusta. Mas a minha pequena luta que, revele-se, é mais interna do que externa, não me permite sequer imaginar ignorar as conquistas do passado ou a associação dos meus sonhos a fanáticos religiosos, órgãos, clubes, empresas, etc.; eu não sou “hashtag_nomedojuiz”, embora reconheça o valor de seu trabalho. Eu não quero ser representado por nenhuma ideologia religiosa ou qualquer um de seus representantes, seus altos decibéis e as suas abundantes isenções tributárias. Eu quero distância dos radicais direitistas (a mesma que quero de seus equivalentes esquerdistas). Eu não consigo vangloriar a Polícia Federal mesmo concordando que eles estão fazendo um ótimo trabalho. Eu não acho certo compactuar com um levante emocionado e a todo e qualquer custo. Mas também não é possível ignorar as investigações que têm sido feitas. O país carece de justiça. A apuração séria de quem quer que seja deve seguir sendo o mote principal desta operação Lava Jato e de qualquer outra que se arme. Doa a quem doer!

Bradamos alto quando o assunto é corrupção – parece que é questão inabalável: todos contra. Porém, é fundamental que se investigue tudo, sem qualquer relação com instituições, pessoas, orientações ou partidos. A lei é uma só e as consequências por desrespeitá-la devem ser aplicadas a todos que a infringiram, incondicionalmente. Não dá para tolerar um tríplex-brinde, um enriquecimento de 30 milhões pautado em palestras não comprovadas (suposição minha), um sítio “emprestado de amigos” ou um cofre cheio de obras de arte, da mesma forma que não podemos compactuar com os desvios de verba nas obras do metrô, com a lengalenga mal contada das merendas escolares e/ou com o super (hiper!) faturamento das ciclovias paulistanas, para citar somente alguns poucos exemplos recentes. Há que se exigir o mesmíssimo tipo de processo investigativo, julgamentos e penas a todos os citados nas delações. Sem exceção!

Apurem-se as evidências e punam-se os responsáveis. Criminalmente, civilmente e em qualquer outra esfera envolvida. Punam-se todos. Com respeito e seriedade e não com desespero ou desrespeito, como, por exemplo, notou-se na atabalhoada, por assim dizer, tentativa de prisão preventiva que o MP de São Paulo protocolou há uma semana, contra o ex-presidente Lula. Se for para ser assim, é preferível parar e recombinar as regras. É um caminho sombrio e amedrontador que nos levaria a perder as referências sobre o que pode e o que não pode ser feito. Seria abrir mão da coerência em nome de algo bastante menor. Da mesma forma, como não sou totalitário, considero absolutamente imoral a tentativa de se “convidar” o ex-presidente Lula a ocupar um ministério como rota de fuga ao risco de uma eventual condenação pela justiça comum. Não há, pelo menos até aqui, justificativa (comprovada ou não) para se requerer uma prisão preventiva do Lula bem como, de tal modo, não existe decência na artimanha da pasta ministerial. Sejam sérios e povo há de endossá-los. Sejam fracos e inventivos que povo se dispersa.

GuiCarloni15032016

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Parabéns, meu velho!

Meu Pai, Meu Velho, Meu AMIGÃO: infinito é o seu coração!

Este Homem, que admiro tanto, com olhar longínquo, sempre pronto e atento na medida dos seus limites, ainda me mostra o caminho da dignidade, honestidade, trabalho e esperança. Este Homem brincalhão, porém silencioso e pensativo, de fé e grande luta, bondoso e sincero, hoje completa 88 anos. Viva!! JJ

Obrigada Pai, por orientar o meu caminho de lutas e incertezas, mas também, de muitas esperanças e sonhos. Privilégio inexplicável ser sua filha, comemorarmos mais um ano de vida e tê-lo como o meu maior presente, para sempre!

Nesse ano não passaremos juntos, mas as minhas orações me levam aí pertinho e assim, agradecemos a presença de Deus que, mais uma vez, concede-nos a graça da saúde, paz, amor e alegrias.
Que hoje o sol esteja mais brilhante e alegre o nosso semblante! JJ

E.. “que o nosso aaaaniversário, seja muito feliz...”  (Salima)

Feliz 88, PAI. Te amo além da conta!




domingo, 3 de janeiro de 2016

Os Melhores Votos

Texto muito oportuno de Gui Carloni que abrilhanta este acervo:

"Passada a euforia das festas, os fogos, as sete ondas, as doze uvas, o bom velhinho, os votos imprecisos e toda a volúpia alimentar que caracteriza, via de regra, os finais de ano, deixo aqui meus votos para o recém chegado dois mil e dezesseis.
Que neste ano os quatro "porquês" possam ser finalmente diferenciados e usados adequadamente. Basta de desigualdade; é muita injustiça com os (sempre) três preteridos.
Que 2016 traga luz às pessoas que desejarão, demarcando o plural com "ão" e não com "am", um "feliz 2017 a todos", sem o acento indicativo de crase
Quando estiverem na praia, por favor, lembrem que todo coco tem casca, polpa, água e são ricos em minerais, mas nenhum tem acento. Seguem o exemplo da melancia. Hidratem-se.
Que todos possam curtir as férias, passear com suas respectivas famílias e tirar muito autorretrato bacana, sempre de olho e respeitando as leis de trânsito e da gramática. Se forem viajar, viajem com "j" e aproveitem a viagem com "g".
Falando em viajar, seja aonde for, que seja frutífero. Aqui, acolá ou onde quer que for.
Que o retorno ao trabalho seja mais prazeroso do que doloroso, mas que nada seja feito de forma atribulada a ponto de confundirmos os "mais" com os "mas".
Ainda no trabalho, ao esclarecer que alguns documentos estão sendo enviados num e-mail, que as pessoas deem lugar à concordância e digam que tais arquivos "seguem anexos".
Que o "de repente", assim, invariavelmente separado, surpreenda positivamente a cada um de vocês. Com certeza, que tambėm não é uma palavra única, este seria um indicativo de ano aprazível.
Há e sempre haverá razões para que algo precise ser lembrado ou esquecido. Há e não "a" ou "à". Haverá e não "haverão". Se a lembrança ou o esquecimento envolverem a preposição
"de", um pronome oblíquo precisa aparecer. Lembrem! E não se esqueçam disto!
Esta outra aqui já é do conhecimento de todos faz muitos anos. Toda vez que "fazer" precisar ser usado para descrever um tempo, ele deve permanecer no singular.
No final de tudo, caso você se engane e precise consertar algum erro, não se acanhe. É normal. Não faz mal. Nem mau,
que são muito diferentes. Entretanto, conserte com "s". E ficaremos quites, novamente com "s".
"Menas" não existe. "A nível de" é errado. "Senão" e "se não" são coisas diferentes. "Descriminar" não é "discriminar". "De mais" não é o mesmo que "demais". Não é demais?
São meus sinceros votos para 2016 (em diante)!"
                                                                                                                                                     Gui Carloni 02/01/2016

Olá pessoal! Feliz 2016.
A partir de 01.01.2016 entra em vigor o Novo Acordo Ortográfico.


sábado, 12 de dezembro de 2015

Feliz 83, Mãe Querida!

Que o seu  aaa-ni-ver-sá-rio... seja muuui- to feliz...

Enquanto algumas pessoas fazem de tudo para tornarem-se marcantes, outras agem naturalmente e tornam-se inesquecíveis.

O que dizer de uma mulher que ao dar a vida, entrega a sua; ao lutar por seus filhos esquece-se de si mesma; ao desejar o sucesso deles abandona os seus anseios; ao vibrar com suas vitórias, esquece seu próprio mérito.

O que dizer de uma mãe que ao receber injustiças, responde com seu amor; e que ao relembrar o passado faz um pedido: Deus proteja os meus filhos por toda a vida.

Que bom seria se Deus, por um descuido, te fizesse eterna.
Feliz 83, mãe querida!


Todo o meu amor
Todo o meu carinho,
Zi

13/12/15

terça-feira, 30 de junho de 2015

Verbos Abundantes - Chego ou chegado?

Uma dúvida persiste entre os falantes de Português, no Brasil. Afinal, de acordo com as regras gramaticais, qual é a forma correta: "Ele tinha chego" ou "Ele tinha chegado"? Pra gente começar a conversa, precisamos entender por que alguns verbos assumem mais de uma forma de conjugação.
Já ouviu falar em verbos abundantes?
Segundo os principais dicionários e gramáticas, verbos abundantes são os verbos irregulares que apresentam mais de uma forma de conjugação equivalente para o mesmo tempo e pessoa. No caso de "chego" e "chegado", estamos falando de formas equivalentes de particípio.
E o fato gramatical é: o verbo CHEGAR não apresenta particípio abundante, ou seja, não possui duas formas equivalentes. Portanto, o correto é CHEGADO; e não chego. No caso que citamos no início deste texto, o adequado é "Ele tinha CHEGADO".
Mas por que tanta gente acaba usando construções como "Ele tinha chego"?
Como verificamos, alguns verbos possuem formas equivalentes. No caso do particípio, são abundantes os verbos: expulsar, pagar, ganhar e salvar, por exemplo. Por essa razão, são aceitas as construções: "Ele foi expulso da escola" e "O boleto foi pago".
Então, por que o desvio gramatical acontece? Um dos prováveis motivos é o de que o falante faz analogia (comparação) ao termo e emprega a mesma forma em outros verbos similares. Se eu digo, "ele tinha salvo o arquivo" (correto), posso dizer, também, "ele tinha chego em casa" (incorreto).
Se eu digo, "O projeto foi aceito pela diretoria" (correto), vou dizer "Ele tinha trago os sapatos" (incorreto). Pela simples comparação, o usuário faz novas construções que, inicialmente, não existem na gramática.
E tem outro detalhe: uma das formas do particípio é igual ao presente do indicativo. Veja só:
Eu trago quem quiser na minha casa. (correto: presente do indicativo)
Ele tinha trago à festa todos os amigos. (erro: particípio do verbo “trazer” - não abundante)
Verifique alguns exemplos de verbos abundantes que possuem duas formas de particípio:
  • ACENDER - acendido, aceso
  • ACEITAR - aceitado, aceito
  • CORRIGIR - corrigido, correto
  • ELEGER - elegido, eleito
  • EXPULSAR: expulsado, expulso
  • ENTREGAR - entregado, entregue
  • EXTINGUIR - extinguido, extinto
  • FIXAR - fixado, fixo
  • FRITAR - fritado, frito
  • LIMPAR - limpado, limpo
  • PRENDER: prendido, preso
  • SALVAR: salvado, salvo
  • SOLTAR: soltado, solto
Percebemos, por meio da analogia, a formação de novas construções. Fique atento às duas formas de particípio aceitas pela gramática. Saber analisar as características brasileiras do Português é muito importante. E ter o conhecimento das normas vigentes, também.

Mãe Querida,

Há quase três anos, 30 de abril de 2017, vivenciamos juntas a triste partida do seu grande e inseparável companheiro, meu amado pai. Aos pr...