sexta-feira, 5 de maio de 2017

"Qualquer coisa, estamos aqui"

Pai, você se foi. Partiu silenciosamente no mais profundo sono que alguém pode ter. Tenho vivido dias cinzentos e noites escuras. E por mais que eu me esforce, por mais que eu busque vocábulos apropriados para homenageá-lo, permaneço emudecida e desnorteada. Insisto em demonstrar todo o meu sentimento em palavras, mas a tua grandeza nega-me o vocabulário apropriado, capaz de expressar a profundidade da minha dor.
Pai, você é TUDO de um TUDO que eu não soube dizer.
Todo o meu carinho. Todo o meu amor.
Zilda Carloni

Ainda bem que o seu neto mais velho, aprendeu a fotografar e revelar todos os tipos de sentimentos... e fala por mim.

"[JUSTIÇA INJUSTA]

Justo a mim, cheio de defeitos, coube-me o privilégio desmedido de ser neto de um homem como meu avô.
Justo a mim, incrédulo convicto, coube-me a pecha de receber numerosos consolos de cunho religioso.
Justo a mim, tão displicente, coube-me a culpa de não tê-lo visitado recentemente.
Justo a mim, que tem plano pra tudo, coube-me a revolta de não ter planejado este dia.
Justo a mim, tão ligado à família e amigos, coube-me o peso de não haver me despedido de figura TÃO importante.
Justo a mim, tão "durão", coube-me enfrentar tanta lágrima (própria).
Justo a mim, tão conectado com as palavras, coube-me o dissabor de não tê-las usado enquanto ele ainda as podia ouvir.
Justo a mim, tão avesso a velórios, coube-me a desgraça de ter que encarar o dele.
Justo a mim, que já tinha o feriado egoistamente planejado, coube-me ter que revirar tudo em cinco minutos e partir para nosso último e triste encontro.
Justo a mim, que sempre ri da sua filosofia dos "seis amigos", coube-me, chorando, a sexta (e apertada) alça do seu caixão.
Justo a mim.
Justo a mim, pelo lado oposto deste prisma - agora - maldito, couberam-me incontáveis tesouros durante nossa convivência de quase quarenta anos.
A mim me cabe então agradecer (agora, só em pensamento...) por cada dedo de prosa, por cada exemplo, por cada sorriso, por cada piada, por cada conto repetido (que ele sabia que já havia contado), por cada presente, por cada presença, por cada noite de pagem, por cada ajuda, por cada sopinha de pão, por cada palavra quando vivi fora, por cada "fica com deus", por cada "tudo de bom pro ceis tudo", por cada "eles que se fodam", por cada "quando que ceis vem?", por cada "tissurim", "cutis cus cuti" ou "bosta na caneca", por cada "ceis deixa eu quieto!", por cada funcionário que o senhor preparou, por cada ensinamento de humanidade, por cada ser humano que o senhor ajudou, por cada elogio ao Silvio Santos, por cada crítica (correta) ao "futebor", por cada pedaço de lixo que o senhor transformou em algo útil, por cada planta que o senhor cultivou, por cada animal que o senhor criou, por cada demonstração de destreza no uso de ferramentas, por cada doação, por cada dica ao volante, por cada relógio acertado com o 102, por cada burro amansado e cavalo domado, por cada gesto humilde, por cada vez que o senhor ouviu desaforos sem rebater, por cada exemplo (de novo, são muitos...), por cada abraço, por cada beijo molhado vindo daqueles beiços propositadamente projetados à diante, por cada tijolo da Catedral mais linda do país, por cada gesto de carinho com as minhas filhas - suas bisnetas, por cada colo oferecido, por cada pose pra foto, por ter batizado a Giulia, por cada passo na direção certa e - não que a lista pudesse terminar - por cada minuto de dedicação, amor, carinho, apoio e respeito à minha avó, a quem caberá o maior vazio deste universo, após quase setenta anos juntos.

Justo a mim, que não sei dizer para onde estarás indo, avô querido, cabe-me o dever de enxugar as lágrimas e continuar seguindo teus brilhantes passos.
Ainda que "tardio", eu te amo. Teu modelo está impregnado em mim para sempre.
Ah, se der, vô, desculpe-me novamente por aquela costela trincada! Foi sem querer, apertei de saudade. :(
Disseram-me que os avós não morrem, mas que eles apenas se escondem. Se for verdade, farei de tua tarefa (a da auto-ocultação) um "inferno".

[no dia desta foto ele completava 88 anos (fev/16) - estava feliz com a casa cheia - e me dava outra lição de moral. Aprendeu o que era uma selfie, demos risada, mas não perdeu a oportunidade de dizer que meu pescoço estava parecendo um tronco de mandioca, de tão largo...]"

Guilherme Carloni 30/04/2017

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