terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Mal a pior ou mau a pior?

IR DE MAU A PIOR / IR DE MAL A PIOR

     Bastante conhecida é a expressão "ir de mal a pior".

     "As coisas vão de mal a pior". Ou seja, as coisas vão mal e tendem a piorar.

     Obviamente, estaria errado dizer: "As coisas vão de mau a pior".

     "Mal" é advérbio de modo, palavra que indica como é que as coisas vão.

     Assim, nossa tendência é considerar errada a expressão: "ir de mau a pior". Mas estaria mesmo errada?

     Vejamos este caso:

     "Aquele menino é mau e piora a cada dia".

     "Mau" é adjetivo, palavra que expressa o caráter do menino.

     Se dissermos: "Aquele menino vai de mau a pior", queremos dizer que seu caráter está transformando-se da condição de "mau" a uma situação "pior". Temos aí uma estreita relação entre as palavras "menino" e "mau", ou seja: "menino mau".


     Na frase: "Aquele menino vai de mal a pior", não queremos necessariamente dizer que o menino é mau, ele pode estar indo mal por outras razões.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

2016, 17, 18

Passada a euforia das festas, os fogos, as sete ondas, as doze uvas, o bom velhinho, os votos imprecisos e toda a volúpia alimentar que caracteriza, via de regra, os finais de ano, deixo aqui meus votos para o recém chegado dois mil e dezesseis.

Que neste ano os quatro "porquês" possam ser finalmente diferenciados e usados adequadamente. Basta de desigualdade; é muita injustiça com os (sempre) três preteridos.

Que 2016 traga luz às pessoas que desejarão, demarcando o plural com "ão" e não com "am", um "feliz 2017 a todos", sem o acento indicativo de crase.

Quando estiverem na praia, por favor, lembrem que todo coco tem casca, polpa, água e são ricos em minerais, mas nenhum têm acento. Seguem o exemplo da melancia. Hidratem-se.

Que todos possam curtir as férias, passear com suas respectivas famílias e tirar muito autorretrato bacana, sempre de olho e respeitando as leis de trânsito e da gramática. Se forem viajar, viajem com "j" e aproveitem a viagem com "g".

Falando em viajar, seja aonde for, que seja frutífero. Aqui, acolá ou onde quer que for.

Que o retorno ao trabalho seja mais prazeroso do que doloroso, mas que nada seja feito de forma atribulada a ponto de confundirmos os "mais" com os "mas".

Ainda no trabalho, ao esclarecer que alguns documentos estão sendo enviados num e-mail, que as pessoas deem lugar à concordância e digam que tais arquivos "seguem anexos".

Que o "de repente", assim, invariavelmente separado, surpreenda positivamente a cada um de vocês. Com certeza, que tambėm não é uma palavra única, este seria um indicativo de ano aprazível.

Há e sempre haverá razões para que algo precise ser lembrado ou esquecido. Há e não "a" ou "à". Haverá e não "haverão". Se a lembrança ou o esquecimento envolverem a preposição
"de", um pronome oblíquo precisa aparecer. Lembrem! E não se esqueçam disto!

Esta outra aqui já é do conhecimento de todos faz muitos anos. Toda vez que "fazer" precisar ser usado para descrever um tempo, ele deve permanecer no singular.

No final de tudo, caso você se engane e precise consertar algum erro, não se acanhe. É normal. Não faz mal. Nem mau,
que são muito diferentes. Entretanto, conserte com "s". E ficaremos quites, novamente com "s".

"Menas" não existe. "A nível de" é errado. "Senão" e "se não" são coisas diferentes. "Descriminar" não é "discriminar". "De mais" não é o mesmo que "demais". Não é demais?

São meus sinceros votos para 2016 (em diante)!

Guilherme Carloni
Dez2016

@GuiCarloni

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

LETRA DE MÉDICO


No passado 12 de dezembro do ano em curso, a professora Zilda Carloni [@ProfZi] publicou um interessante microconto na rede social Twitter. Conta-nos ela que “O médico foi esquiar, se perdeu nas trilhas e morreu. Até escreveu “socorro” na neve, mas ninguém entendeu sua letra”. Tratando-se de uma ficção, dispensam-se as lamentações; sobra-nos, contudo, a constatação de um problema ainda hoje muito recorrente: a ilegibilidade da letra dos nossos valiosos e prestimosos médicos. Na verdade, este meu texto já estava escrito. Alterei-o para nele incluir esta menção ao oportuno tuíte da nobre professora.
Todos os dias eu leio os jornais lusitanos Diário de Notícias e Jornal de Notícias. Para além do interesse pessoal em inteirar-me dos fatos, inclusivamente daqueles transcorridos no Brasil em contraponto à imagem brasileira no exterior, procuro apreender nas entrelinhas o modo de expressar-se num português não contaminado por alguns detestáveis vícios.
No dia 17 de janeiro de 2016, a edição informatizada do Jornal de Notícias publicou um artigo escrito por Afonso Camões, intitulado Letra de Médico. Com toda a avidez a ele fui, contudo não vi muito sobre o apelativo tema. O artigo traçava considerações sobre o preço internacional do petróleo, que em Portugal desenhava-se em curva descendente muito mais íngreme que a do preço da gasolina. Quando ele examina o que sobre o assunto dizem as empresas petrolíferas, constata exageradamente que as suas explicações são tão enigmáticas quanto a letra de médico, isto é, mal explicam e não convencem.
O tema é sério e entre nós já mereceu a atenção do legislador federal. Em 1973 foi editada a Lei Federal n. 5.991/73, cuja alínea “a” do artigo 35 dispõe que apenas se aviará a receita “que estiver escrita a tinta, em vernáculo, por extenso e de modo legível, observados a nomenclatura e o sistema de pesos e medidas oficiais”. De outro lado, o Código de Ética do Conselho Federal de Medicina (CFM) não se tem descurado do assunto. Proibiu ao “médico receitar, atestar ou emitir laudos de forma secreta ou ilegível, sem a devida identificação de seu número de registro no Conselho Regional de Medicina da sua jurisdição, bem como assinar em branco folhas de receituários, atestados, laudos ou quaisquer outros documentos médicos. (Cap. 3, art. 11).”
Repetindo um ritual de mais de doze anos, estive em 2016 com o meu urologista. Da nossa conversa resultou uma requisição para a realização de uma tomografia. Quando vi o que o excelente profissional escrevera, percebi que quem o descodificasse teria automática habilitação para interpretar a Pedra da Roseta. Fi-lo refletir sobre essa minha “dificuldade”, ele a compreendeu e prontamente refez a requisição, usando, agora, hieróglifos bem mais inteligíveis.
Coincidentemente, na mesma altura fui constituído estafeta entre médicos que me assistiam. A minha supercapaz gastroenterologista redigiu um relatório para ser entregue à minha não menos preparada dermatologista, em resposta a um pedido de esclarecimento formulado pela última. Creio que nem mesmo a autora do relatório o leria se, fora do contexto, o documento lhe fosse apresentado inopinadamente por outrem. Nele o vocábulo enzimas tanto se parece com “funções”, com “em coma”, com “níveis”, mas jamais com “enzimas”. Pedi ajuda a um amigo versado em hebraico, e assim produzi uma tradução alternativa para ser usada, se a minha dermatologista não entendesse o relatório produzido pela sua colega. Afinal, a destinatária é médica sem especialização em adivinhas.
Quando eu tinha uns doze anos de idade, recebemos em casa uma carta enviada pelo meu avô materno à minha mãe. O meu avô não era médico, era um sábio agricultor que mal sabia escrever. Morava no campo. Ao final da missiva, ele dizia à minha mãe: envio-te uma Benção. Com esforço e muito boa vontade podia ler-se a frase quase toda, mas não completamente, pois havia um sério problema com a mencionada palavra Benção. A Benção não chegava a ser uma maldição, contudo a sua inicial B fraturava-se em duas estruturas descontínuas, apesar de mutuamente próximas. A da esquerda formava uma haste quase vertical, porque ligeiramente pendente para a direita [I]. A outra, à direita, confundia-se com dois semicírculos empilhados, como se o superior estivesse a cavalgar sobre o inferior, ambos com a abertura voltada para a esquerda à moda de duas microscópicas baías [3], tudo a induzir-nos que a letra maiúscula bê se havia transformado no numeral treze [13]. Para aperfeiçoar o mal-entendido, as demais letras formadoras da palavra [enção] insistiam em fazer-nos lembrar do substantivo plural onças. Conclusão: tínhamos receio de que o meu avô tivesse tentado enviar-nos as tais “13 onças”, que até hoje não nos chegaram, graças a Deus, provavelmente à conta de recusa dos Correios.
Na acepção artística do bem escrever à mão, eu próprio não tenho caligrafia e por isto já paguei o preço da desclassificação num importante concurso público. Apesar de na altura dominar bem o assunto programático, dei-me mal. Nenhuma banca examinadora se iria munir de lupas e/ou valer-se de expertos para assim poderem perceber o que um ignoto candidato dissertaria misteriosamente numa prova em que se avaliam simultaneamente o conteúdo técnico-jurídico e a expressão em língua portuguesa. É claro que os examinadores não iriam gastar o seu precioso tempo na tentativa de repetir o que antes já fizera o famoso Jean-François Champollion. Por que o fariam?
Magno R Andrade
@magnoreisand – siga-me no Twitter

domingo, 10 de dezembro de 2017

Expressões Partitivas e Concordância Verbal

Como o próprio nome diz, "concordância" é harmonia. Mas, seja na língua coloquial ou formal, nem sempre a combinação entre sujeito e verbo acontece de maneira apropriada. É comum que o verbo apareça no singular, quando deveria estar no plural, ou que esteja no plural, quando deveria estar no singular.
Veja esses exemplos:
"A maioria dos atores são moradores da própria favela".
Sabe-se que, se o sujeito é "A maioria" (e não "A maioria dos atletas", "A maioria dos deputados", "A maioria das mulheres" etc.), o verbo deve ficar no singular: "A maioria preferiu ficar na sala"; "A maioria quer mudanças"; "A maioria gostou do filme".
A dúvida ocorre quando termos como "maioria" ou "parte" (e outros de mesma natureza) vêm seguidos de especificadores postos no plural. Nesse caso, o que decide a questão não é uma regra rígida, inflexível; é o bom senso. A escolha da forma verbal depende basicamente do que se quer enfatizar, ressaltar.


Em "A maioria dos jornalistas mostrou preparo para sabatinar o candidato", a opção por "mostrou" enfatiza a noção de conjunto, de grupo, representada pela palavra "maioria". Essa é a concordância lógica, já que é da norma geral que o verbo concorde com o núcleo do sujeito.
Caso se optasse por "A maioria dos jornalistas mostraram...", dar-se-ia destaque para os formadores do grupo ("os jornalistas"). A questão fundamental é saber se de fato há necessidade de enfatizar os formadores do grupo, já que a concordância natural é feita com o verbo no singular. Formas como "A maioria dos eleitores compareceu" ou "Grande parte dos motoristas desconhece o básico do básico das leis de trânsito" talvez soem mais naturais do que "A maioria dos eleitores compareceram" ou "Grande parte dos motoristas desconhecem...".


A coisa pode mudar de figura quando se trata de verbos como "ser", "estar", "ficar" etc. Com eles, a obediência à concordância lógica nem sempre gera bons resultados. Veja-se a frase citada no início deste texto ("A maioria dos atores são moradores da própria favela"). Siga-se a concordância lógica e se chegará a isto: "A maioria dos atores é moradora da própria favela".
Que tal? A decisão é de quem escreve ou fala, já que as duas formas ocorrem na língua padrão, mas a opção por "é", que concorda com "maioria", impõe a necessidade de estender o critério à concordância do predicativo ("moradora"), o que talvez soe um tanto "estranho". Como quem efetivamente mora são os atores, parece que a opção por "A maioria dos atores são moradores da própria favela" é mais natural do que a opção por "A maioria dos atores é moradora...".


O que foi dito a respeito de "A maioria" se estende a "Boa parte", "A maior parte" etc. Frases como "A maior parte dos homens examinados é portadora da infecção" ou "A maioria dos trabalhadores dessas regiões está contaminada" talvez sejam naturalmente substituídas por "A maior parte dos homens examinados são portadores da infecção" ou "A maioria dos trabalhadores dessas regiões estão contaminados".
Insisto que a escolha é sua, mas a regra geral de concordância verbal é que o verbo deve concordar com o sujeito, em número (singular/plural) e pessoa (1a. , 2ª. ou 3ª. pessoa). Mas, como o uso da língua é muito amplo, existem algumas regras específicas.  Esse é o caso da concordância em orações em que há expressões partitivas, como “a maioria”, “a minoria”, “grande parte”.

“A maior parte dos colaboradores aderiu à greve.”(singular)

“Mais da metade dos funcionários não compareceram à reunião.” (plural)

Na primeira oração, o verbo está no singular; na segunda, está no plural. Ambas corretas.

A explicação para a ocorrência do verbo no singular ou no plural nesses casos, é que o verbo pode ser conjugado das duas formas.

“A menor parte dos participantes não gostou/gostaram do curso.”

“Boa parte dos integrantes concorda/concordam com a política do grupo.”

“Menos da metade dos monitores lembra/lembram daquela aluna.”

Mas há uma sutil diferença de sentido:

a)    conjugar o verbo no singular, dá ênfase à noção de conjunto, de grupo (foco na expressão “a menor parte”, “boa parte”, “menos da metade”).

b)    conjugar no plural, enfatizam-se aqueles que formam o grupo ( “participantes”, “integrantes”, “monitores”), ainda que esta seja a forma incomum de redigir esse tipo de oração.

Como recomendação, dê preferência ao uso do verbo no singular quando redigir orações com expressões partitivas, por ser a mais usual. Mas saiba que tanto a versão no singular quanto no plural são aceitas gramaticalmente.

domingo, 15 de outubro de 2017

Parabéns, professores!


Um dia, ao atender um advogado na Justiça do Trabalho da Quinta Região, percebi que aquele profissional era o antigo diretor do Colégio Estadual Manoel Devoto, instituição soteropolitana na qual estudei por longos sete anos. A ele dirigi-me reverentemente, logo identificando-me como um humilde ex-aluno do inesquecível colégio. O seu rosto ornou-se de um largo sorriso ao encontrar-se casualmente com um ex-aluno que de pronto o reconhecera. A alegria fê-lo esquecer-se por um tempinho do móvel que o levara a estar ali, sendo inevitável reservarmos um pouco do nosso precioso tempo para relembrarmos a convivência no antigo colégio.     
Nós, os alunos, estávamos habituados a ouví-lo todas as quintas-feiras, numa cerimônia de cariz cívico, cujo ápice era o hasteamento do pavilhão pátrio enquanto cantávamos o hino nacional, antes que as aulas do turno matutino se iniciassem. À tarde, após o encerramento das aulas, o rito se repetia, desta feita para a arriamento da bandeira nacional. Dizia-nos ao final dos seus discursos que éramos “os melhores alunos no melhor colégio”. Sentíamo-nos tão orgulhosos com isto! Perdoem-me a imodéstia, mas o que ele dizia era verdade. Tínhamos excelentes professores, numa altura em que esses profissionais já não eram assim tão valorizados.
Intento aqui render a minha homenagem a todos os professores, esses bravos, incansáveis e desvalorizados profissionais que operam na erradicação da ignorância, da carência de conhecimento e da falta de civilidade. Hoje, o profissional do ensino convive com o perigo, com o mau tratamento que lhe dão os alunos inimigos do aprendizado, e ainda submete-se a fazer malabarismos financeiros para satisfazer as suas próprias necessidades de sobrevivência.
Não faz muito, assisti a uma entrevista concedida pelo Comandante de um colégio militar. A arrogante repórter lhe perguntara se era verdade que o/a responsável pelo aluno Fulano de tal havia sido convocado para cientificar-se de que deveria transferir o seu filho para outro estabelecimento de ensino. Sem temer nenhuma interpretação de que o colégio tomara medida politicamente incorreta, o Comandante ratificou a notícia, e informou à repórter que o colégio exigia conduta irrepreensível de todos os alunos. Ali era uma casa de ensino, disciplina e ordem. O faltoso aluno era multirreincidente em comportamentos indisciplinados, inclusivamente em desapreço aos professores, e havia desperdiçado toda a tolerância admissível. Pude notar como a repórter frustrou-se por não ser capaz de amedrontar o Comandante.   
Domingo, dia 15 de outubro, comemora-se no Brasil o Dia do Professor. Faço coro às justas homenagens que são tributadas aos professoresexpresso meu mais profundo respeito e veneração a esses digníssimos profissionais. A eles, pois, o meu preito de gratidão.
Parabéns, professores!
Ah, ia-me esquecendo de segredar-lhes: também já fui professor. 



Magno R Andrade
@magnoreisand – siga-me no Twitter





Magno Reis Andrade, protestante, brasileiro, nasceu em 17 de Junho de 1951, em Jequié, BA. Aos oito anos de idade, foi com os seus pais morar na capital baiana. Em 1969, foi admitido na Universidade Federal da Bahia, para, em 1973, bacharelar-se em Farmácia-Bioquímica. Com tal competência laborou até o ano de 1980, principalmente no Município de Bom Jesus da Lapa, BA. Lá, conheceu a sua futura esposa, a mesma que lhe daria as suas duas preciosas filhas. Em 1980, aceitou o desafio de trabalhar numa função pública municipal em Salvador, BA. Neste mesmo ano, ingressou no curso de Administração de Empresas, mantido pela Universidade Católica do Salvador, instituição que, em 1986, conferiu-lhe o respectivo grau de bacharel. Ainda em 1980, voltou à Universidade Federal da Bahia, para realizar o curso de Administração Pública, enfim, inconcluso por exiguidade de tempo. Mediante concurso público, em 1989 passou a exercer o cargo efetivo de Analista Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Quinta Região, BA. Ao se reformar em Novembro de 2010, exercia há sete anos as funções de assessor jurídico no Serviço de Análise de Processos Judiciais, unidade organizacional de direto apoio à Presidência do Tribunal trabalhista. Em 1990, retornou à Universidade Católica do Salvador, desta feita para, em 1995, obter o grau de bacharel em Direito. Entre os anos de 1970 e 1973, integrou profissionalmente o Madrigal da Universidade Federal da Bahia. Gosta de idiomas, ama a língua portuguesa.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Era uma vez


Era uma vez uma avó.
Era uma vez uma avó sem limites.
Era uma vez uma avó sem limites e sem mobilidade.
Era uma vez uma avó sem limites que, mesmo sem mobilidade, cozinhava bem demais.
Era uma vez uma avó sem limites que, mesmo sem mobilidade, cozinhava bem demais e ainda fazia o prato que cada um gostava.
Era uma vez uma avó sem limites que, mesmo sem mobilidade, cozinhava bem demais, e ainda fazia o prato que cada um gostava, mesmo que isso significasse doze preparações para cinco comensais.
Era uma vez uma avó sem limites que, mesmo sem mobilidade, cozinhava bem demais, e ainda fazia o prato que cada um gostava, mesmo que isso significasse doze preparações para cinco comensais. E sempre sem perder a ternura.
Uma vez, a avó sem limites que, mesmo sem mobilidade, cozinhava bem demais, fazia o prato que cada um gostava, ainda que isso significasse doze preparações para cinco comensais, sem nunca perder a ternura, fez tudo isso. Para arrematar, fez três bolos de pelo menos 8 ovos cada um: cenoura, banana e laranja eram os sabores.
Não contente, no dia seguinte (e ainda com três bolos quase inteiros pela casa), a avó sem limites que, mesmo sem mobilidade, cozinhava bem demais, fazia o prato que cada um gostava, mesmo que isso significasse doze preparações para cinco comensais, sem jamais perder a ternura, já tendo feito tudo aquilo e os três bolos de pelo menos 8 ovos cada um, resolveu fazer mais um bolo. Por que não? De fubá com amendoim. Agora eram cinco pessoas e quatro bolos grandes. Fora as novidades do almoço.
Era uma vez uma avó sem igual, por quem "era uma vez" meu regime.
@GuiCarloni

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Memórias de um concurso público que me deixou lições para toda a vida




Por Marcos Mairton

Escrevo hoje sobre fatos que estão prestes a completar vinte anos, mas são muito presentes em minha memória. Além disso, podem servir de inspiração a quem enfrenta atualmente as batalhas do conhecimento nos concursos para cargos jurídicos, os chamados "concurseiros".
Em 1997, eu era advogado no Banco do Nordeste do Brasil, uma sociedade de economia mista, na qual trabalhava desde 1980. Emprego conquistado por concurso, aos quatorze anos de idade, no cargo de bancário aprendiz.
Havia percorrido todo um caminho do promoções e seleções internas, chegando a coordenador de uma equipe de advogados. Até que decidi buscar novos horizontes, e inscrevi-me em um concurso público para o cargo de Procurador do Banco Central do Brasil.
As vagas no Banco Central eram distribuídas por localidade, duas para Fortaleza.
- Só duas? - perguntou um amigo.
- É suficiente - respondi sorrindo. - Deixa o resto do pessoal brigar pela outra!
E comecei a estudar, item por item, o programa.
Tratava a dedicação ao estudo como um segundo emprego. Todos os dias. Com hora certa para começar e terminar. A diferença era que, nesse segundo “emprego”, ao invés de os sábados, domingos e feriados serem momentos de descanso, eram dias de carga horária dobrada.
Valeu a pena. Feitas as provas e publicado, algum tempo depois, o resultado, vi a brincadeira que houvera feito meses atrás tomar forma de profecia: no site do CESPE, meu nome era o único no espaço reservado aos aprovados para as vagas de Fortaleza; a outra vaga havia sobrado.
A história poderia ter terminado com esse final feliz, mas estava apenas começando. E começando de um jeito que eu jamais esqueceria.
Tendo ido dormir certo da aprovação, somente no dia seguinte percebi que havia sido aprovado apenas na prova objetiva, e não na subjetiva. Nesta, deixei de alcançar a nota necessária para atingir o perfil mínimo. Faltaram-me dezessete centésimos.
Isso mesmo, dezessete centésimos de ponto. Com um detalhe: a pontuação máxima da prova era 20, com um perfil mínimo de 10. Então, tendo feito 9,83 pontos, faltaram-me os fatídicos 0,17.
Se o leitor chegou até aqui, deve estar se perguntando: como assim? Era o que eu também me perguntava naquele dia. Longas foram as horas que se seguiram até que as cópias das planilhas de correção estivessem em minhas mãos. De posse do material, passei a oscilar entre a frustração e a incredulidade.
Eram apenas duas as questões da prova subjetiva. Os avaliadores consideraram que errei totalmente a primeira (resultado que até hoje não aceito) e atribuíram-me os dez pontos da segunda. Isso me garantiria a aprovação, não fosse pelos dezessete centésimos que me foram descontados, pelo que consideraram um erro de português.
O erro causador de efeito tão catastrófico? Eu escrevera “supra mencionado”. Assim mesmo, com o “supra” separado do “mencionado”.
Claro que eu sabia que se escreve “supramencionado” em uma palavra só. No rascunho havia escrito certo. Mas aquele era meu primeiro concurso jurídico, então achei que seria uma boa ideia escrever em rascunho e depois transcrever para a folha de respostas. Na hora de “passar a limpo”, por alguma razão, a cisão aconteceu. Surgiu um espaço entre o “supra” e o “mencionado”.
Recorri administrativamente, sustentei de várias formas que aquilo não chegava a ser um erro gramatical, mas somente o Judiciário acatou meus argumentos. Obtive medida liminar determinando minha nomeação e posse.
Surgiu daí um momento de difícil decisão: valeria a pena deixar o emprego público em uma entidade paraestatal, na qual havia entrado por concurso e construído toda uma história de dezoito anos? Não seria arriscado demais tomar posse no novo cargo, em caráter precário, como é próprio das medidas liminares?
Tentei algum tipo de afastamento temporário, ou uma forma de desligamento que me permitisse voltar ao cargo, caso a liminar fosse cassada, mas sem sucesso. Terminei pedindo demissão do BNB e tomando posse como Procurador do Banco Central no dia seguinte, em janeiro de 1998, por força de liminar.
Narro esses acontecimentos para compartilhar com os leitores - especialmente os concurseiros - o quanto foi frustrante tomar conhecimento da derrota, depois de haver comemorado a vitória. Ver escapar por entre os dedos a conquista. E, o que me parecia pior, ser derrotado por minha própria incompetência (ou pela arrogância de examinadores insensatos), e não para um concorrente mais preparado.
Mas, escrevo também, para dizer o quanto valeu a pena não me deixar dominar pela frustração. Seguir em frente, sem medo de enfrentar outras batalhas.
Correr o risco da posse precária talvez não tenha sido a opção mais sensata. Mas, no fim das contas, é provável que a condição “sub judice” - que me acompanhou durante toda a minha permanência no Banco Central - tenha sido um dos maiores incentivos para continuar estudando. Até com mais afinco. Não é nada agradável viver sob o risco da cassação de uma liminar que nos garante o emprego.
A aprovação em concurso para Advogado da União, e a posse no cargo, em fevereiro de 2000, puseram fim ao processo judicial - extinto por perda do objeto - e a dois anos de tensão. Quatorze meses depois, deixei a AGU para me tornar colega dos juízes federais cujas decisões me haviam proporcionado fazer aquela travessia.
De tudo isso, guardo a lição de que é preciso determinação na busca dos nossos objetivos. Não desanimar, quando as coisas parecerem não estar dando certo, nem permitir que a ansiedade tire nossa concentração do momento atual.
Aos que buscam o seu espaço através de concursos públicos, costumo dizer: não adianta ficar pensando se a prova vai ser difícil, nem se há muitos concorrentes; seu compromisso é estudar o mais detalhadamente possível cada item do programa.
E digo também que se acostumem a escrever sem ter que passar a limpo.
A verdade é que passei anos sem escrever a palavra “supramencionado”. Ainda hoje, não consigo escrevê-la sem lembrar de toda essa história.
P. S.: Ao narrar esses fatos, rendo homenagem a Romério Coelho Portela de Melo e Peter John Arrowsmith Cook Jr, meus colegas, procuradores do Banco Central, com quem pude contar nos momentos mais difíceis desse período da minha vida.

Supra-citado não, Excelência, supracitado!







 Uma das mais tormentosas questões para quem escreve em português é o uso correto do hífen. Este sinal gráfico (-), a que também se chama traço de união, é usado para pacificar os elementos de um composto, para que não vão a vias de fato. É utilizado para servir de conciliador a alguns prefixos e os demais elementos de uma palavra composta, prevenindo-se conflitos e mortes gramaticais, e é aplicado para separar as sílabas em final de linha, ou, ainda, para indicar os elos enclíticos e mesoclíticos.
Das hipóteses acima algumas são rigorosamente indolores e de facílima aplicação. Nem se necessita de anestesia. No entanto, quem quer que escreva precisa de arriscar-se a comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Refiro às palavras bem e mal e não exatamente à transgressão adâmica noticiada no Pentateuco. De fato, as palavras bem e mal têm temperamento irascível e exigem espaço exclusivo. São indomáveis. Para praticar o bem, deve verificar se se trata de palavra composta por aglutinação, caso em que não haverá hífen [benquisto, benfeitor]. Não sendo assim, convém recolher da árvore do conhecimento do bem e do mal alguns hífenes a serem usados em bem-estar, bem-vindo, bem-aventurança etc. E, para não parecer pessoa malcriada ou mal-educada, ou alguém que queira malferir o idioma, será bom saber que, após praticar o mal, usa-se o hífen em palavras começadas por vogal, h ou l, como nos exemplos “mal-humorado” e “mal-limpo” [VOLP da ABL].
Em “Deixem o hífen em paz”, trabalho disponível na internet [http://goo.gl/6lJHde], Wertheimer e Scarton lembram-nos didaticamente do que alguns dizem sobre o hífen: “foi nosso arquiinimigo, e continua sendo nosso arqui-inimigo” [sic].
Sem fugir ao tema, falemos de flores. Ah, as flores… Gosto delas. Outro dia, fui comprar umas e meti-me em apuro. Vi uns malmequeres lindos e pedi à vendedora duas dúzias deles. A florista, uma mui jovem senhora de uns oitenta anos de idade, não percebeu plenamente o que eu lhe pedira, e perguntou-me: “quer malmequeres ou bem-me-queres?”. Falava sério e tinha lá as suas razões. Para não criar desentendimentos com os defensores do Acordo Ortográfico de 1990, nem com os seus respectivos opositores, ela organizara na sua loja duas alas de prateleiras. Numa delas estavam todas as flores com os nomes anteriores ao Acordo Ortográfico, e que assim se mantiveram após a sua vigência; na outra, as de nomes alterados pelo Acordo. Respondi-lhe: “senhora, venda-me os mais baratos”, contudo, uns e outros tinham o mesmo preço. Eram iguais. Comprei-os e entrei numa livraria para adquirir logo uma gramática da língua portuguesa.
Antes de reformar-me, trabalhava na função pública e servia a um dos ramos da Justiça Federal. Lá, degustei sem sal e sem tempero muitos batráquios anuros vivos. Um dia, engoli um desagradável e irrequieto sapinho. Na qualidade de secretário de audiência, função que exercia ao tempo do episódio, deveria exarar em ata tudo o que me ditava o/a juiz/a. Assim, ao ouvir o que o/a magistrado/a dissera, eu digitei “supracitado”. Na altura, ele/ela exigiu-me enfaticamente intercalar um hífen a supra e a citado, para, enfim, chegar vitoriosamente ao “supra-citado”. Tudo isto audível e publicamente, claro. Sentindo-me qual verdadeiro iletrado, cumpri silente e fielmente o seu divinal e judicial mandado.
Com efeito, o Acordo Ortográfico andou a modificar as coisas. Mas, no caso do termo supracitado, em nada o afetou. A dúvida que tenho – e nem a poderia extirpar via embargos declaratórios, porque precluído o prazo processual – é se aquele/a magistrado/a já terá aprendido a escrever supracitado. Tê-lo-á? Insondável mistério!
Senhoras e senhores, façam as suas apostas. Dou-lhes uma…

Posted on 5 de Dezembro de 2016


Magno R Andrade
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Magno Reis Andrade, protestante, brasileiro, nasceu em 17 de Junho de 1951, em Jequié, BA. Aos oito anos de idade, foi com os seus pais morar na capital baiana. Em 1969, foi admitido na Universidade Federal da Bahia, para, em 1973, bacharelar-se em Farmácia-Bioquímica. Com tal competência laborou até o ano de 1980, principalmente no Município de Bom Jesus da Lapa, BA. Lá, conheceu a sua futura esposa, a mesma que lhe daria as suas duas preciosas filhas. Em 1980, aceitou o desafio de trabalhar numa função pública municipal em Salvador, BA. Neste mesmo ano, ingressou no curso de Administração de Empresas, mantido pela Universidade Católica do Salvador, instituição que, em 1986, conferiu-lhe o respectivo grau de bacharel. Ainda em 1980, voltou à Universidade Federal da Bahia, para realizar o curso de Administração Pública, enfim, inconcluso por exiguidade de tempo. Mediante concurso público, em 1989 passou a exercer o cargo efetivo de Analista Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Quinta Região, BA. Ao se reformar em Novembro de 2010, exercia há sete anos as funções de assessor jurídico no Serviço de Análise de Processos Judiciais, unidade organizacional de direto apoio à Presidência do Tribunal trabalhista. Em 1990, retornou à Universidade Católica do Salvador, desta feita para, em 1995, obter o grau de bacharel em Direito. Entre os anos de 1970 e 1973, integrou profissionalmente o Madrigal da Universidade Federal da Bahia. Gosta de idiomas, ama a língua portuguesa.

Mal a pior ou mau a pior?

IR DE MAU A PIOR / IR DE MAL A PIOR      Bastante conhecida é a expressão "ir de mal a pior".      "As coisas vão de...