segunda-feira, 14 de maio de 2018

O Sem Saída

Foi encontrado no bolso de um cadáver, quando se preparava para a autópsia, a seguinte carta:
“Senhor delegado do ministério público:
Suicidei-me!... Não culpe ninguém pela minha morte, deixei essa vida porque um dia a mais que eu vivesse, acabaria por morrer louco!
Eu explico-lhe: Tive a desdita de me casar com uma viúva, a qual tinha uma filha; se soubesse disso, jamais teria me casado. Meu pai, para maior desgraça,  era viúvo e quis a fatalidade que se enamorasse e casasse com a filha da minha mulher.
Resultou daí que a minha mulher se tornou sogra do meu pai. A minha enteada ficou a ser a minha mãe e a o meu pai ao mesmo tempo meu genro!
Após algum tempo, a minha filha pôs no mundo uma criança, que veio a ser meu irmão, porém neto da minha mulher, que fiquei a ser avô do meu irmão. Com o decorrer do tempo, a minha mulher pôs também no mundo um menino, que como irmão da minha mãe, era cunhado do meu pai, e meu tio, passando a minha mulher ser a nora da própria filha.
Eu, senhor delegado, fiquei a ser pai da minha mãe, tornando-me irmão dos meus filhos, a minha mulher, ficou a ser minha avó, já que era mãe da minha mãe, assim acabei sendo avô de mim mesmo.
Portanto, antes que a coisa se complicasse mais, resolvi acabar com tudo de uma vez!”

domingo, 13 de maio de 2018

Viver

Um jovem advogado foi indicado para inventariar os pertences de um senhor recém-falecido. Segundo o relatório do seguro social, o idoso não tinha herdeiros ou parentes vivos. Suas posses eram muito simples. O apartamento alugado, um carro velho, móveis baratos e roupas puídas. “Como alguém passa toda a vida e termina só com isso?” Pensou o advogado. Anotou todos os dados e ia deixando a residência quando notou um porta-retratos sobre um criado mudo.

Na foto estava o velho morto. Ainda era jovem, sorridente, ao fundo um mar muito verde e uma praia repleta de coqueiros. À caneta  escrito bem de leve no canto superior da imagem lia-se “sul da Tailândia”. Surpreso, o advogado abriu a gaveta do criado e encontrou um álbum repleto de fotografias. Lá estava o senhor, em diversos momentos da vida, em fotos em todo o canto do mundo.

Em um tango na Argentina, na frente do Muro de Berlim, em um tuk tuk no Vietnã, sobre um camelo com as pirâmides ao fundo, tomando vinho em frente ao Coliseu, entre muitas outras. Na última página do álbum, um mapa, quase todos os países do planeta marcados com um asterisco vermelho, indicando por onde o velho tinha passado.

Escrito à mão no meio do Oceano Pacífico, uma pequena poesia:
Não construí nada que me possam roubar.
Não há nada que eu possa perder.
Nada que eu possa trocar.
Nada que se possa vender.
Eu que decidi viajar,
Eu que escolhi conhecer,
Nada tenho a deixar
Porque aprendi a viver...

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Um ano

Pai, saudades, infinitas saudades!
Teu olhar, o sorriso, um gesto.
O amor que sinto por ti transcende a alma e o tempo, e nem o espaço consegue conter. Se eu conseguir explicar, esse tem sido o meu viver:
São 365 dias e 6 horas sem ver o teu semblante, Pai. Um ano sem a tua presença alegre e exemplar, sem o teu passo vagaroso e o teu jeito diferente de seguir em frente. 
Que falta isso me faz!

Não há como não me lembrar de tantas lições verdadeiras. Já não sei viver sem ter a ti como parte fundamental da memória, como moradia fixa do meu peito e o exemplo de amor puro, real, bonito e eterno.
A emoção reside aqui, dentro de mim e uns pedaços de ti também: 
Tua voz, o teu olhar carinhoso e teu sorriso de gente.
Sinto saudades do que não fizemos, do muito que recebi e do quanto eu poderia ter feito.
Saudades das coisas, do lugar, do falar, de um beijo, um abraço, um carinho e aquele teu jeito diferente. Ou daquela tua frase improvisada, de repente.
Que falta isso me faz!

Saudade é tudo o que fica, de quem não pôde ficar.
Saudades eternas de ti, meu pai!

Zi
30/04/2018











quarta-feira, 18 de abril de 2018

Terminação Verbal


Pensar na terminação verbal ajuda muito na hora da escrita. Se o verbo for finalizado em – AJAR, há um padrão para a grafia; se for finalizado em -UAR, há um outro padrão.

1. -AJAR e – UJAR

Os verbos finalizados em -AJAR – como encorajar e viajar – conservam o “j” no presente do subjuntivo:
que eu viaje
que tu viajes
que ele viaje
que nós viajemos
que vós viajeis
que eles viajem

O fato interessante é que os substantivos derivados desses verbos são grafados com “g”: coragem, viagem.


2. -UAR

Os verbos finalizados em – UAR – como atuar, continuar, cultuar, efetuar, excetuar – são grafados com “e” (e não com “i”) no presente do subjuntivo:

que eu atue
que tu atues
que ele atue
que nós atuemos
que vós atueis
que eles atuem

3. -UIR

Os verbos finalizados em -UIR – como concluir, contribuir, diminuir, possuir – são grafados com “i” (e não com “e”) na 3ª pessoa do singular, no presente do indicativo:


ele conclui
ele contribui
ele diminui
ele possui

Observar a terminação verbal é um ótimo recurso ortográfico.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Catador de Lindezas

"Eu venho de lá,
onde o bem é maior.
De onde a maldade seca, não brota.
De onde é sol, mesmo em dia de chuva e a chuva chega como bênção.
Lá sempre tem uma asa, um abrigo para proteger do vento e das tempestades.
Eu venho de um lugar
que tem cheiro de mato, água de rio logo ali e passarinho em todas as estações.
Eu venho de um lugar em que se divide o pão,
se divide a dor
e se multiplica o amor.
Eu venho de um lugar onde quem parte
fica para sempre,
porque só deixou boas lembranças.
Eu venho de um lugar onde criança é anjo, jovem é esperança
e os mais velhos são confiança e sabedoria.
Eu venho de um lugar onde irmão é laço de amor e amigo é sempre abraço.
Onde o lar acolhe para sempre, como o coração de mãe.
Eu venho de um lugar que é luz mesmo em noite escura.
Que é paz, fé e carinho. Eu venho de lá e não estou sozinho,
"SOU CATADOR DE LINDEZAS",
sobrevivo de encantamento,
me alimento do que é bom, do bem.
Procuro bonitezas
e bem-querer,
sobrevivo do que tem clareza e só busco o que aprendi a gostar.
Não esqueço de onde venho e vou sempre querer voltar.
Meu lugar se sustenta do bem que encontro pelo caminho, junto a maços de alfazema e alecrim. Assim, sou como passarinho carregando a bagagem de bondade, catando gravetos de cheiro, para esquentar e sustentar o ninho...

Talvez a vida tenha feito você acreditar que este lugar não exista.
Eu digo: tem sim, é fácil encontrar.
Silencie, respire, desarme-se, perceba, é pertinho.
Este lugar que pulsa amor é dentro da gente,
é essência,
está em cada um de nós.
Basta a gente buscar."

Autor desconhecido


domingo, 25 de fevereiro de 2018

Meu Pai Eterno

Este dia, que era de alegria, sorrisos, beijos e abraços, tornou-se nostalgia. E a gente ia fazer uma festa para somar os meus sessenta com os teus noventa, Pai, mas o maior pedaço da minha história foi morar com Deus e a tua partida ainda sangra, especialmente hoje, por não poder abraçar-te e sentir esse teu grande amor.

Há pessoas especiais em nossas vidas, outras importantes, raríssimas indispensáveis. Algumas nos fazem bem, poucas nos fazem felizes, outras marcam eternamente. Foste para Deus meu Pai, e o vazio que ficou jamais será preenchido, só o amor que insiste em residir no meu peito resiste ao tempo e à saudade. E é em nome desse amor e da tua memória que viverei este dia com serenidade e em paz. Buscarei transmitir-te todo o meu amor através de orações e receber a tua luz.

Hoje, de qualquer forma, celebrarei silenciosamente o dia do nosso nascimento, Pai, o dia em que chegaste ao mundo para escrever a tua história e ser parte da minha. Acho que nunca escrevi um poema... Queria transformar-te numa só palavra, a mais bonita de toda a minha vida. Aquela palavra que quando dita, bem dita e bendita, te trouxesse novamente para mim... Tua imagem, tua risada, teu olhar e a tua voz.

Vou escrever-te um poema, assim como a vida escreveu-te em mim. Hoje não consigo, tua ausência está sangrando. Muito. Escrevo melhor na alegria e é com alegria que quero celebrar-te. Hoje, só nesmo essa pequena mensagem.


Tomara que exista mesmo vida após a morte, Pai. Tomara que recebas minha homenagem, minha ternura e o meu afeto. Qualquer que seja a distância, o meu amor ainda é maior. Sempre foste, é e será o meu maior e melhor presente.

Em oração... e aceitação.
Descansa, Pai.





terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Grande Otelo e o Nó da Gravata

Por Marcos Mairton

Escrever pela manhã é algo que raramente faço. Mas, foram exatamente alguns fatos fora da rotina, e uma coincidência, que me fizeram escrever este texto, nesta manhã do dia 26 de novembro de 2014.
Veja só, caro leitor. Em uma quarta-feira, normalmente acordo pelas seis e meia da manhã. Saio às sete, deixo os meninos no colégio, e, de lá, sigo para uma pracinha perto de casa ou para a Avenida Beira Mar, onde corro durante uns trinta a quarenta minutos. Depois, volto para casa, para começar o dia propriamente dito.
Hoje, não sei por qual razão, acordei um pouco mais cedo que o horário de costume, uns quinze minutos antes das seis. Acontece que as aulas deste ano letivo terminaram sexta-feira passada. Sem ter quem levar à escola, deixei-me vencer pela preguiça, e continuei deitado.
Voltar a dormir não me pareceu uma boa opção, então liguei a TV – afastando-me mais uma vez da minha rotina, já que nunca vejo televisão tão cedo – e observei que havia gravado, na noite anterior, o filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, exibido pelo Canal Brasil.
Comecei a ver o filme, e foi aí que apareceu Grande Otelo. Passados menos de dez minutos da trama, logo após uma cena na qual Lúcio Flávio e seus comparsas assaltam um banco, dois investigadores chegam a um bar, perguntando por ele. No dito bar, está o personagem interpretado por Grande Otelo, um pobre diabo que acaba sendo maltratado pelos policiais.
Interessante rever um filme assim, ambientado nos anos sessenta, e perceber como tanta coisa mudou nesses últimos quarenta anos. É tão pouco tempo e, no entanto, os carros, as roupas, o comportamento das pessoas, tudo é muito diferente. Os peitos da atriz que aparece na cama com Lúcio Flávio (Reginaldo Farias) não têm silicone, o banco que eles assaltam não tem porta giratória nem computadores…
Embora que, na verdade, essas reflexões só me vieram à mente depois, quando comecei a escrever. Na hora em que estava vendo o filme, a aparição de Grande Otelo me levou a outro ponto do passado, precisamente o ano de 1979, quando, pela primeira vez, dei um nó em uma gravata.
“Como assim?”, perguntará o leitor que tenha chegado a este ponto. Respondo. No ano de 1979, Grande Otelo fazia parte do elenco da novela “Feijão Maravilha”, na Rede Globo. Em um dos capítulos, houve uma cena na qual ele dava um nó na própria gravata, enquanto conversava com alguém. E, como ele falava e dava o nó ao mesmo tempo, acabava movendo as mãos muito lentamente, o que permitiu que eu observasse os movimentos que fazia para ajustar a gravata ao pescoço.
Terminada a cena, fui ao guarda-roupa onde meu pai guardava o único paletó e a única gravata que possuía. Peguei a gravata e, olhando-me no espelho, repeti os movimentos que Grande Otelo acabara de fazer. Tinha eu, então, treze anos de idade, e dei o primeiro nó de gravata da minha vida. Naquele dia, desfiz o nó e o refiz várias vezes, até ter certeza de que havia aprendido para não mais esquecer.
Não, eu não imaginava que, no futuro, o uso do paletó viesse a fazer parte da minha rotina diária. Nem tampouco que dar meus próprios nós nas minhas gravatas viesse a ter alguma utilidade. Eu simplesmente me interessei pelo que o ator estava fazendo e resolvi imitar.
Mas, o fato é que, hoje, mais de trinta anos depois, quase todos os dias ponho-me diante do espelho e repito aqueles mesmos movimentos, ajustando a gravata, antes de sair para o trabalho.
Ao ver Grande Otelo no filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, essas memórias voltaram, e me veio a curiosidade de consultar a Wikipédia, para ver há quanto tempo o ator faleceu. Descobri, surpreso, que sua morte aconteceu exatamente em um dia 26 de novembro, como hoje. Foi no ano de 1993, de forma que, como diria meu amigo Luiz Berto, completam hoje exatos vinte e um anos desde que Grande Otelo se encantou.
Diante de tal coincidência, só me restou escrever este texto, para registrar o fato, e, aproveitando a ocasião, fazer um justo agradecimento:
– Grande Otelo, muito obrigado por tudo o que fez pela dramaturgia no Brasil. Mas, muito obrigado, sobretudo, por haver me ensinado a dar nó em gravata!

Twitter: @MarcosMairton


Marcos Mairton da Silva é juiz federal, mestre em Direito Público (UFC) e MBA em Poder Judiciário (FGV Rio). Escritor, poeta, cordelista e compositor, é editor do blog Mundo Cordel e mantém intensa atividade literária por meio de sua coluna "Contos, Crônicas e Cordéis", no blog Jornal da Besta Fubana .Escritor cearense, com vários livros publicados, membro fundador da Academia Quixadaense de Letras (AQL) e da Academia Brasileira de Cultura Jurídica (ABCJuris).

Twitter: @MarcosMairton


O Sem Saída

Foi encontrado no bolso de um cadáver, quando se preparava para a autópsia, a seguinte carta: “Senhor delegado do ministério público: Sui...