sexta-feira, 16 de junho de 2017

A flor também voou



Fui ao Cemitério Jardim da Saudade para despedir-me de um familiar a quem sou mui grato por ter-me ajudado numa importante fase da minha vida. Finda a solenidade fúnebre e consumado o próprio ato do sepultamento, quando, então, manifestaram-se os derradeiros cumprimentos de pesar ao cônjuge supérstite e aos filhos órfãos, deu-se a subsequente dispersão daqueles que compareceram em solidariedade à família enlutada.
Com toda a intrepidez, os raios solares incidiam sobre a nossa desprotegida pele. A temperatura ambiente estava alta, o calor, insuportável. Suávamos a cântaros. Ainda assim, aproveitei a oportunidade para ir ao túmulo no qual repousam os restos mortais da minha querida filha falecida prematuramente. Pretendia nele deixar algumas flores representativas da intensa saudade que me efervesce o âmago do ser. Na altura, enquanto deitava flores na lousa tumular, observei um numeroso bando de periquitos em destemidos sobrevoos acrobáticos, organizado em triangular formação, a se deslocar velozmente no ar ao provável comando dalgum periquito-mor, atrás do qual todos os demais se punham a voar ao sabor dos inesperados movimentos e das ordens superiores de última hora. Tais periquitos pareciam estar em exercício de adestramento aeronáutico, ou, quem sabe, talvez estivessem a ser avaliados com vistas a obter promoção na Força Aérea. Voavam a descrever grandiosas espirais ascendentes, seguidos de voltas completas no plano vertical, complementadas por repentinos mergulhos no ar, sempre a iludir-nos quanto ao exato instante em que pousariam nos topos das árvores. Chilreavam em metálica e desafinada polifonia, fingindo estar a formar um harmonioso conjunto coral. Em verdade, entretanto, agiam como se estivessem a discutir apaixonadamente o resultado do último dérbi em que o juiz deixou de validar um importante tento, tanto para frustração da equipa atacante, quanto para alívio da rival que esteve na iminência de ter violada a sua baliza.
Ao referir o belo espetáculo público a um dos prepostos do cemitério, dele ouvi que as tais manobras aéreas são comuns nesta quadra do ano. Segundo ele, as aves circulam incansavelmente de um lado a outro em busca do essencial alimento, e para elas o intangível horizonte era o limite. Expôs que nestas incursões de longo curso, quase transcontinentais, elas iam até às cercanias da distante Avenida Luís Viana, onde moro, faziam outras investidas e então retornavam ao ponto de origem no Jardim da Saudade.
O informador tinha razão. Ao alvorecer de cada dia, eu me ponho na varanda da minha casa, e lá fico a observar uns pontualíssimos periquitinhos em evoluções coreográficas altamente radicais, felizmente sem nenhuma notícia de acidentes aéreos, muito embora passem em altíssima velocidade por entre os diversos edifícios sem ao menos lhes tocarem.
Um dia desses, depois de muitas dessas manobras exibicionistas, o provável periquito-chefe empoleirou-se numa árvore, no que foi imediatamente imitado pelos seus obedientes subalternos. Uma breve pausa para meditação e refazimento de forças, e o chefão do bando achou por bem alçar voo sem nenhum aviso prévio. Sempre alerta, imediatamente os comandados fizeram o mesmo.
Nesta última revoada, certamente iriam retornar ao campo-santo. Se tivessem vindo à minha varanda, eu lhes teria rogado que me fizessem a caridade de levar-me uma flor ao Jardim da Saudade. Eu até lhes recompensaria pelo serviço.
Entanto, os finórios fizeram de conta que nem me viram. Indiferentes a voar céu afora, foram-se embora, sumiram. E eu, em pleno desalento, a remoer o pensamento, ortostaticamente estagnado na varanda do meu apartamento, tendo às mãos aquela flor a simbolizar o amor que pela minha filha fervilha, deitei-a abaixo, soltei-a ao vento. Nessa hora, enquanto o meu coração chora e lateja, a tênue flor fraqueja a despetalar-se em lento bamboleio, quase a cindir-se ao meio sem forças para subir. Assim mesmo, o quanto pode ainda plana, plana em voo a esmo até sumir.
Magno R Andrade
@magnoreisand – siga-me no Twitter 
Magno Reis Andrade, protestante, brasileiro, nasceu em 17 de Junho de 1951, em Jequié, BA. Aos oito anos de idade, foi com os seus pais morar na capital baiana. Em 1969, foi admitido na Universidade Federal da Bahia, para, em 1973, bacharelar-se em Farmácia-Bioquímica. Com tal competência laborou até o ano de 1980, principalmente no Município de Bom Jesus da Lapa, BA. Lá, conheceu a sua futura esposa, a mesma que lhe daria as suas duas preciosas filhas. Em 1980, aceitou o desafio de trabalhar numa função pública municipal em Salvador, BA. Neste mesmo ano, ingressou no curso de Administração de Empresas, mantido pela Universidade Católica do Salvador, instituição que, em 1986, conferiu-lhe o respectivo grau de bacharel. Ainda em 1980, voltou à Universidade Federal da Bahia, para realizar o curso de Administração Pública, enfim, inconcluso por exiguidade de tempo. Mediante concurso público, em 1989 passou a exercer o cargo efetivo de Analista Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Quinta Região, BA. Ao se reformar em Novembro de 2010, exercia há sete anos as funções de assessor jurídico no Serviço de Análise de Processos Judiciais, unidade organizacional de direto apoio à Presidência do Tribunal trabalhista. Em 1990, retornou à Universidade Católica do Salvador, desta feita para, em 1995, obter o grau de bacharel em Direito. Entre os anos de 1970 e 1973, integrou profissionalmente o Madrigal da Universidade Federal da Bahia. Gosta de idiomas, ama a língua portuguesa.

Um comentário:

  1. Profe Zi!

    Justíssima homenagem a este grande amigo Magno, defensor da Língua Pátria e amigo da #TribodoBem.

    Disse tudo.
    Meus cumprimentos profe e abraços de luz nobre Magno

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