segunda-feira, 16 de julho de 2018

Minas Gerais

Já rodei muito na vida,
Quase o Brasil inteiro
Estradas do norte e do sul
Sem ter nenhum paradeiro.
Mas vou contar uma coisa
E nisso sou bem verdadeiro
Se o mineiro sai de Minas
Minas nunca sai do mineiro

E não pode sair mesmo
Digo de um jeito maneiro
Depois de conhecer o Brasil
Eu posso dizer bem faceiro
Que quem conhece Minas,
Conhece o Brasil inteiro
E orgulhar-se de ser de Minas
É orgulhar-se de ser brasileiro.
Veja o Norte de Minas
Igual a cearense Icó
Tanta seca e pobreza
Que faz qualquer um sentir dó
Aquele calor e secura
Lembra o sertão Seridó
Ali é praticamente o Nordeste.
Só que “um cadinho mió”

Sim, Minas também tem nordeste
Jequitinhonha, dizia minha avó.
Gente aguerrida e guerreira
Que sempre agüenta o jiló
Mas que sabe descansar sossegado
Pescar, esperar o anzol.
Parece o povo baiano
Só que um “cadinho mió”.

Mas é no vale do Mucuri
Que a terra parece de um faraó
Lá tem gente honrada e honesta
Que não vai para o xilindró
Lá o pessoal aproveita de tudo
Dá valor até ao mocotó
Parece muito a Paraíba
Só que é um “cadinho mió”

E o povo do nosso Rio Doce
Povo moreno queimado do sol
Mas que trabalha na terra
Quieto poupando o gogó
Naquelas terras bonitas
Canta alegre o curió
É um pedaço do Espírito Santo
Só que um “cadinho mió”.

E na zona da Mata
Antes, lá era o cafundó.
Hoje tem gente que pensa
Que lá só é festa: samba, baião, carimbó
Mas lá se trabalha bastante
Não pense que é só futebol
Lá é igual o Rio de Janeiro
Só que um “cadinho mió”.

E o nosso sul de Minas
Perseverante como o profeta Jó
Gente que não teme o trabalho
Num labor de sol a sol
Terra de gente importante
Vestida de gravata e paletó
Parece o povo paulista
Só que um “cadinho mió”.

E o povo cafeeiro
Com os pés sujos de pó
Não têm medo de nada
Neles ninguém dá o nó
Café com leite no Brasil
É o nosso grande xodó
Parece o sul de Brasil
Só que um “cadinho mió”

O povo do Triangulo
Que usando um braço só
Derruba um boi pelo chifre
Faz dele um simples totó
È um povo esperto e matreiro
Que não perde tempo fazendo filó
Igual o povo do Mato Grosso
Só que um “cadinho mió”.

E nas nossas Cidades Históricas
Tudo no estilo rococó
lugar de gente ilustre
Tiradentes, Juscelino, Zé Arigó
Terra de revolução e de luta
Inconfidência, revolta, quiproquó
Poderia ser a capital do país
Só que um “cadinho mió”

E no Alto Paranaíba
Café, pães de queijo e de ló
De frutas gostosas, o abricó
Lugar de aves campeiras
A ema, o pavão, o carijó
Lugar de festas famosas
Rezas, danças, forró
Parece muito Goiás
É só um “cadinho mió”.

Se em Minas está o Brasil
Em Belo Horizonte o Brasil é um só
Mineiro de todos os lados
Juntos, amarrados com grande nó
Aos pés da serra do curral
Pertinho da serra do cipó
Não deve nada pra nenhuma capital
Só que a nossa é MUITO E MUITO MIÓ.

terça-feira, 26 de junho de 2018

O PROFESSOR E O FLANELINHA

Por Marcos Mairton

Quando ingressei no Curso de Direito da Universidade de Fortaleza, em 1986, estava com vinte anos de idade, mas já trabalhava no Banco do Nordeste. Um bom emprego, que me permitia pagar com tranquilidade as mensalidades do curso, além de assistir às aulas sem o estresse de quem ainda busca uma vaga no mercado de trabalho.

O curso era noturno. Lembro que, no primeiro dia de aula, cheguei quando o sol ainda nem havia acabado de se por e deixei o carro no estacionamento externo do campus. Naquela época, não havia muita preocupação com assaltos ou furtos.

Um rapazinho de uns quatorze anos que estava por ali, com uma flanela no ombro, prontificou-se a cuidar do carro até que eu voltasse:

– Posso ficar “pastorando” aí, Louro? – perguntou.

“Pastorar” é um verbo que no idioma cearês significa “cuidar de uma coisa alheia, sem tocar nela; manter sob vigilância”. A palavra consta dos dicionários de língua portuguesa como sinônimo de “pastorear”, que vem a ser a atividade do pastor ao cuidar do rebanho. O sentido é praticamente o mesmo.

“Louro” é uma das muitas maneiras de se tratar alguém cujo nome se desconhece.

– Pode! – respondi, de pronto, imaginando que ele pretendia receber alguma paga pelo serviço de vigilância, mas tendo certa dúvida se um jovenzinho daquela idade estaria a postos quando eu retornasse, lá pelas dez da noite.

E fui para minha aula. Quando retornei ao estacionamento, ao final, lá estava ele. Não pediu nada. Seu cumprimento – “Diz aí, Louro!” – foi o sinal para que eu lhe desse algum dinheiro.

A partir daquele dia, deixava costumeiramente o carro naquela área do estacionamento, sob os cuidados do jovem que passei também a chamar de “Louro” – o que fazia até mais sentido, porque, diferentemente de mim, ele tinha os cabelos loiros.

Foi assim durante todo o meu curso de Direito. Estacionava, cumprimentava o Louro e ia assistir às aulas. Ao voltar, encontrava-o esperando o pagamento, ou, o “trocado”, como ele preferia chamar.

Mas nem sempre ficava nisso. Várias vezes dei-lhe camisas e sapatos, em bom estado de conservação, que não mais usava. Era quase uma amizade. Não chegava a tanto, porque a conversa nunca passou de “Diz aí, Louro!”, “Beleza, Louro!” e coisas assim. Logo, nunca fiquei sabendo onde o Louro morava, nem quem seria sua família, se é que tinha família e casa. Tampouco ele mostrava interesse na minha vida pessoal.

A par disso, recordo que muitas vezes cheguei a me questionar sobre o rumo que toma a vida de uma pessoa, conforme ela tenha oportunidade de estudar. E conforme faça uso dessa oportunidade.

Imaginei que o Louro, apenas uns cinco anos mais jovem que eu, deveria ter nascido em uma casa não muito mais pobre que a minha, na periferia de Fortaleza. Talvez tenha frequentado os primeiros anos do ensino fundamental em uma escola pública, como eu. Mas, em algum momento da vida, perdeu o interesse pelos estudos ou a condição de lhes dar sequência. É possível – talvez provável – que tenha sido incentivado pelos próprios pais a deixar o colégio, para contribuir com a renda da família. O contrário do que acontecera comigo, sempre estimulado a buscar nos estudos o caminho para melhorar de vida.

Independentemente dessas conjecturas, o fato é que, durante alguns anos, frequentamos a mesma universidade. Eu assistindo às aulas, ele “pastorando” meu carro. E, ao final daquele período, eu iria receber meu diploma de bacharel em Direito, enquanto ele continuaria sendo um “pastorador” carros, um “flanelinha”.

Passou o tempo. De bacharel em Direito, fiz o exame da Ordem dos Advogados do Brasil e tornei-me advogado; comecei a advogar no escritório de um amigo, e depois, no próprio departamento jurídico do banco onde trabalhava; entrei para o Mestrado em Direito Público da Universidade Federal do Ceará; passei em concurso para Procurador do Banco Central do Brasil; e concluí o mestrado.

Em 1999, já com o título de mestre, voltei à Universidade de Fortaleza, agora como professor do Curso de Direito, do qual fora aluno.

As aulas começavam às sete da noite, mas, no meu primeiro dia, cheguei à UNIFOR um pouco antes de anoitecer. Talvez por nostalgia, abri mão do estacionamento dos professores e deixei o carro na mesma área onde estacionava quando aluno.

Mal acabava de desembarcar, quando ouvi uma voz:

– Diz aí, Louro!

– Fala, Louro! – respondi com entusiasmo. – Tu ainda tá por aqui?

– Todo dia!

– Vai “pastorar” o meu?

– Claro!

– Tô de novo na área – falei sorrindo. – Mas agora como professor.

– É isso aí! Fez bonito! O senhor sabe que o estacionamento de professor é lá dentro, né? Mas, se quiser deixar aí, ninguém “bole”, não.

“Bole” é a terceira pessoa do singular do verbo “bulir”, que tem muitos significados na língua portuguesa. No idioma cearês é sempre utilizado no sentido de “tocar ou mexer em alguma coisa”.

Mas a palavra usada por ele que me chamou mais a atenção foi “senhor”. Era a primeira vez que se dirigia a mim daquela maneira. Certamente por respeito à minha, agora, condição de professor, demonstrando que, apesar de continuar frequentando a universidade apenas para vigiar os carros, reconhecia o valor dos que se dedicam ao ensino.

Iniciava-se, assim, mais um período de vários anos em que frequentei a Universidade de Fortaleza. Todas as noites, de segunda a sexta-feira. Raramente via o Louro, porque, como ele mesmo havia me alertado, o estacionamento dos professores ficava do lado de dentro do campus.

Nessa mesma época, fiz outros concursos. Fui advogado da União, depois tornei-me juiz federal. Deixei de ensinar em 2005, quando me afastei de Fortaleza, para assumir a primeira vara federal de Juazeiro do Norte. Dali, passei por Mossoró, Sobral e Quixadá. Até retornar a Fortaleza, em 2012.

Não voltei mais a ensinar, mas alguns anos depois do retorno a Fortaleza, fui convidado a dar uma palestra em um seminário na Unifor.

Um carro da universidade foi me buscar no fórum. Terminada a palestra, caminhei até a área externa, onde minha mulher me esperava em nosso carro. Passando pelo local onde costumava estacionar, lembrei dos tempos de aluno do curso de Direito.

O relógio marcava vinte e duas horas e mais um punhado de minutos. Alguns estudantes transitavam por ali, andando apressados em direção ao ponto de ônibus ou ao local onde haviam estacionado seus carros. Formava-se um engarrafamento na avenida que passa em frente à universidade. Alheio a todo aquele movimento, um homem de cabelos grisalhos estava sentado no meio-fio, demonstrando cansaço. Os braços apoiados nos joelhos, a testa apoiada nos antebraços.

No instante em que eu passava por ali, ele ergueu a cabeça e falou sorrindo:

– Diz aí, professor!

Era o Louro.



 Marcos Mairton da Silva é juiz federal, mestre em Direito Público (UFC) e MBA em Poder Judiciário (FGV Rio). Escritor, poeta, cordelista e compositor, é editor do blog Mundo Cordel e mantém intensa atividade literária por meio de sua coluna "Contos, Crônicas e Cordéis", no blog Jornal da Besta Fubana .Escritor cearense, com vários livros publicados, membro fundador da Academia Quixadaense de Letras (AQL) e da Academia Brasileira de Cultura Jurídica (ABCJuris).

Twitter: @MarcosMairton


segunda-feira, 14 de maio de 2018

O Sem Saída

Foi encontrado no bolso de um cadáver, quando se preparava para a autópsia, a seguinte carta:
“Senhor delegado do ministério público:
Suicidei-me!... Não culpe ninguém pela minha morte, deixei essa vida porque um dia a mais que eu vivesse, acabaria por morrer louco!
Eu explico-lhe: Tive a desdita de me casar com uma viúva, a qual tinha uma filha; se soubesse disso, jamais teria me casado. Meu pai, para maior desgraça,  era viúvo e quis a fatalidade que se enamorasse e casasse com a filha da minha mulher.
Resultou daí que a minha mulher se tornou sogra do meu pai. A minha enteada ficou a ser a minha mãe e a o meu pai ao mesmo tempo meu genro!
Após algum tempo, a minha filha pôs no mundo uma criança, que veio a ser meu irmão, porém neto da minha mulher, que fiquei a ser avô do meu irmão. Com o decorrer do tempo, a minha mulher pôs também no mundo um menino, que como irmão da minha mãe, era cunhado do meu pai, e meu tio, passando a minha mulher ser a nora da própria filha.
Eu, senhor delegado, fiquei a ser pai da minha mãe, tornando-me irmão dos meus filhos, a minha mulher, ficou a ser minha avó, já que era mãe da minha mãe, assim acabei sendo avô de mim mesmo.
Portanto, antes que a coisa se complicasse mais, resolvi acabar com tudo de uma vez!”

domingo, 13 de maio de 2018

Viver

Um jovem advogado foi indicado para inventariar os pertences de um senhor recém-falecido. Segundo o relatório do seguro social, o idoso não tinha herdeiros ou parentes vivos. Suas posses eram muito simples. O apartamento alugado, um carro velho, móveis baratos e roupas puídas. “Como alguém passa toda a vida e termina só com isso?” Pensou o advogado. Anotou todos os dados e ia deixando a residência quando notou um porta-retratos sobre um criado mudo.

Na foto estava o velho morto. Ainda era jovem, sorridente, ao fundo um mar muito verde e uma praia repleta de coqueiros. À caneta  escrito bem de leve no canto superior da imagem lia-se “sul da Tailândia”. Surpreso, o advogado abriu a gaveta do criado e encontrou um álbum repleto de fotografias. Lá estava o senhor, em diversos momentos da vida, em fotos em todo o canto do mundo.

Em um tango na Argentina, na frente do Muro de Berlim, em um tuk tuk no Vietnã, sobre um camelo com as pirâmides ao fundo, tomando vinho em frente ao Coliseu, entre muitas outras. Na última página do álbum, um mapa, quase todos os países do planeta marcados com um asterisco vermelho, indicando por onde o velho tinha passado.

Escrito à mão no meio do Oceano Pacífico, uma pequena poesia:
Não construí nada que me possam roubar.
Não há nada que eu possa perder.
Nada que eu possa trocar.
Nada que se possa vender.
Eu que decidi viajar,
Eu que escolhi conhecer,
Nada tenho a deixar
Porque aprendi a viver...

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Um ano

Pai, saudades, infinitas saudades!
Teu olhar, o sorriso, um gesto.
O amor que sinto por ti transcende a alma e o tempo, e nem o espaço consegue conter. Se eu conseguir explicar, esse tem sido o meu viver:
São 365 dias e 6 horas sem ver o teu semblante, Pai. Um ano sem a tua presença alegre e exemplar, sem o teu passo vagaroso e o teu jeito diferente de seguir em frente. 
Que falta isso me faz!

Não há como não me lembrar de tantas lições verdadeiras. Já não sei viver sem ter a ti como parte fundamental da memória, como moradia fixa do meu peito e o exemplo de amor puro, real, bonito e eterno.
A emoção reside aqui, dentro de mim e uns pedaços de ti também: 
Tua voz, o teu olhar carinhoso e teu sorriso de gente.
Sinto saudades do que não fizemos, do muito que recebi e do quanto eu poderia ter feito.
Saudades das coisas, do lugar, do falar, de um beijo, um abraço, um carinho e aquele teu jeito diferente. Ou daquela tua frase improvisada, de repente.
Que falta isso me faz!

Saudade é tudo o que fica, de quem não pôde ficar.
Saudades eternas de ti, meu pai!

Zi
30/04/2018











quarta-feira, 18 de abril de 2018

Terminação Verbal


Pensar na terminação verbal ajuda muito na hora da escrita. Se o verbo for finalizado em – AJAR, há um padrão para a grafia; se for finalizado em -UAR, há um outro padrão.

1. -AJAR e – UJAR

Os verbos finalizados em -AJAR – como encorajar e viajar – conservam o “j” no presente do subjuntivo:
que eu viaje
que tu viajes
que ele viaje
que nós viajemos
que vós viajeis
que eles viajem

O fato interessante é que os substantivos derivados desses verbos são grafados com “g”: coragem, viagem.


2. -UAR

Os verbos finalizados em – UAR – como atuar, continuar, cultuar, efetuar, excetuar – são grafados com “e” (e não com “i”) no presente do subjuntivo:

que eu atue
que tu atues
que ele atue
que nós atuemos
que vós atueis
que eles atuem

3. -UIR

Os verbos finalizados em -UIR – como concluir, contribuir, diminuir, possuir – são grafados com “i” (e não com “e”) na 3ª pessoa do singular, no presente do indicativo:


ele conclui
ele contribui
ele diminui
ele possui

Observar a terminação verbal é um ótimo recurso ortográfico.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Catador de Lindezas

"Eu venho de lá,
onde o bem é maior.
De onde a maldade seca, não brota.
De onde é sol, mesmo em dia de chuva e a chuva chega como bênção.
Lá sempre tem uma asa, um abrigo para proteger do vento e das tempestades.
Eu venho de um lugar
que tem cheiro de mato, água de rio logo ali e passarinho em todas as estações.
Eu venho de um lugar em que se divide o pão,
se divide a dor
e se multiplica o amor.
Eu venho de um lugar onde quem parte
fica para sempre,
porque só deixou boas lembranças.
Eu venho de um lugar onde criança é anjo, jovem é esperança
e os mais velhos são confiança e sabedoria.
Eu venho de um lugar onde irmão é laço de amor e amigo é sempre abraço.
Onde o lar acolhe para sempre, como o coração de mãe.
Eu venho de um lugar que é luz mesmo em noite escura.
Que é paz, fé e carinho. Eu venho de lá e não estou sozinho,
"SOU CATADOR DE LINDEZAS",
sobrevivo de encantamento,
me alimento do que é bom, do bem.
Procuro bonitezas
e bem-querer,
sobrevivo do que tem clareza e só busco o que aprendi a gostar.
Não esqueço de onde venho e vou sempre querer voltar.
Meu lugar se sustenta do bem que encontro pelo caminho, junto a maços de alfazema e alecrim. Assim, sou como passarinho carregando a bagagem de bondade, catando gravetos de cheiro, para esquentar e sustentar o ninho...

Talvez a vida tenha feito você acreditar que este lugar não exista.
Eu digo: tem sim, é fácil encontrar.
Silencie, respire, desarme-se, perceba, é pertinho.
Este lugar que pulsa amor é dentro da gente,
é essência,
está em cada um de nós.
Basta a gente buscar."

Autor desconhecido


domingo, 25 de fevereiro de 2018

Meu Pai Eterno

Este dia, que era de alegria, sorrisos, beijos e abraços, tornou-se nostalgia. E a gente ia fazer uma festa para somar os meus sessenta com os teus noventa, Pai, mas o maior pedaço da minha história foi morar com Deus e a tua partida ainda sangra, especialmente hoje, por não poder abraçar-te e sentir esse teu grande amor.

Há pessoas especiais em nossas vidas, outras importantes, raríssimas indispensáveis. Algumas nos fazem bem, poucas nos fazem felizes, outras marcam eternamente. Foste para Deus meu Pai, e o vazio que ficou jamais será preenchido, só o amor que insiste em residir no meu peito resiste ao tempo e à saudade. E é em nome desse amor e da tua memória que viverei este dia com serenidade e em paz. Buscarei transmitir-te todo o meu amor através de orações e receber a tua luz.

Hoje, de qualquer forma, celebrarei silenciosamente o dia do nosso nascimento, Pai, o dia em que chegaste ao mundo para escrever a tua história e ser parte da minha. Acho que nunca escrevi um poema... Queria transformar-te numa só palavra, a mais bonita de toda a minha vida. Aquela palavra que quando dita, bem dita e bendita, te trouxesse novamente para mim... Tua imagem, tua risada, teu olhar e a tua voz.

Vou escrever-te um poema, assim como a vida escreveu-te em mim. Hoje não consigo, tua ausência está sangrando. Muito. Escrevo melhor na alegria e é com alegria que quero celebrar-te. Hoje, só nesmo essa pequena mensagem.


Tomara que exista mesmo vida após a morte, Pai. Tomara que recebas minha homenagem, minha ternura e o meu afeto. Qualquer que seja a distância, o meu amor ainda é maior. Sempre foste, é e será o meu maior e melhor presente.

Em oração... e aceitação.
Descansa, Pai.





terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Grande Otelo e o Nó da Gravata

Por Marcos Mairton

Escrever pela manhã é algo que raramente faço. Mas, foram exatamente alguns fatos fora da rotina, e uma coincidência, que me fizeram escrever este texto, nesta manhã do dia 26 de novembro de 2014.
Veja só, caro leitor. Em uma quarta-feira, normalmente acordo pelas seis e meia da manhã. Saio às sete, deixo os meninos no colégio, e, de lá, sigo para uma pracinha perto de casa ou para a Avenida Beira Mar, onde corro durante uns trinta a quarenta minutos. Depois, volto para casa, para começar o dia propriamente dito.
Hoje, não sei por qual razão, acordei um pouco mais cedo que o horário de costume, uns quinze minutos antes das seis. Acontece que as aulas deste ano letivo terminaram sexta-feira passada. Sem ter quem levar à escola, deixei-me vencer pela preguiça, e continuei deitado.
Voltar a dormir não me pareceu uma boa opção, então liguei a TV – afastando-me mais uma vez da minha rotina, já que nunca vejo televisão tão cedo – e observei que havia gravado, na noite anterior, o filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, exibido pelo Canal Brasil.
Comecei a ver o filme, e foi aí que apareceu Grande Otelo. Passados menos de dez minutos da trama, logo após uma cena na qual Lúcio Flávio e seus comparsas assaltam um banco, dois investigadores chegam a um bar, perguntando por ele. No dito bar, está o personagem interpretado por Grande Otelo, um pobre diabo que acaba sendo maltratado pelos policiais.
Interessante rever um filme assim, ambientado nos anos sessenta, e perceber como tanta coisa mudou nesses últimos quarenta anos. É tão pouco tempo e, no entanto, os carros, as roupas, o comportamento das pessoas, tudo é muito diferente. Os peitos da atriz que aparece na cama com Lúcio Flávio (Reginaldo Farias) não têm silicone, o banco que eles assaltam não tem porta giratória nem computadores…
Embora que, na verdade, essas reflexões só me vieram à mente depois, quando comecei a escrever. Na hora em que estava vendo o filme, a aparição de Grande Otelo me levou a outro ponto do passado, precisamente o ano de 1979, quando, pela primeira vez, dei um nó em uma gravata.
“Como assim?”, perguntará o leitor que tenha chegado a este ponto. Respondo. No ano de 1979, Grande Otelo fazia parte do elenco da novela “Feijão Maravilha”, na Rede Globo. Em um dos capítulos, houve uma cena na qual ele dava um nó na própria gravata, enquanto conversava com alguém. E, como ele falava e dava o nó ao mesmo tempo, acabava movendo as mãos muito lentamente, o que permitiu que eu observasse os movimentos que fazia para ajustar a gravata ao pescoço.
Terminada a cena, fui ao guarda-roupa onde meu pai guardava o único paletó e a única gravata que possuía. Peguei a gravata e, olhando-me no espelho, repeti os movimentos que Grande Otelo acabara de fazer. Tinha eu, então, treze anos de idade, e dei o primeiro nó de gravata da minha vida. Naquele dia, desfiz o nó e o refiz várias vezes, até ter certeza de que havia aprendido para não mais esquecer.
Não, eu não imaginava que, no futuro, o uso do paletó viesse a fazer parte da minha rotina diária. Nem tampouco que dar meus próprios nós nas minhas gravatas viesse a ter alguma utilidade. Eu simplesmente me interessei pelo que o ator estava fazendo e resolvi imitar.
Mas, o fato é que, hoje, mais de trinta anos depois, quase todos os dias ponho-me diante do espelho e repito aqueles mesmos movimentos, ajustando a gravata, antes de sair para o trabalho.
Ao ver Grande Otelo no filme “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia”, essas memórias voltaram, e me veio a curiosidade de consultar a Wikipédia, para ver há quanto tempo o ator faleceu. Descobri, surpreso, que sua morte aconteceu exatamente em um dia 26 de novembro, como hoje. Foi no ano de 1993, de forma que, como diria meu amigo Luiz Berto, completam hoje exatos vinte e um anos desde que Grande Otelo se encantou.
Diante de tal coincidência, só me restou escrever este texto, para registrar o fato, e, aproveitando a ocasião, fazer um justo agradecimento:
– Grande Otelo, muito obrigado por tudo o que fez pela dramaturgia no Brasil. Mas, muito obrigado, sobretudo, por haver me ensinado a dar nó em gravata!

Twitter: @MarcosMairton


Marcos Mairton da Silva é juiz federal, mestre em Direito Público (UFC) e MBA em Poder Judiciário (FGV Rio). Escritor, poeta, cordelista e compositor, é editor do blog Mundo Cordel e mantém intensa atividade literária por meio de sua coluna "Contos, Crônicas e Cordéis", no blog Jornal da Besta Fubana .Escritor cearense, com vários livros publicados, membro fundador da Academia Quixadaense de Letras (AQL) e da Academia Brasileira de Cultura Jurídica (ABCJuris).

Twitter: @MarcosMairton


Mãe Querida,

Há quase três anos, 30 de abril de 2017, vivenciamos juntas a triste partida do seu grande e inseparável companheiro, meu amado pai. Aos pr...