Esse blog é destinado aos interessados em Língua Portuguesa, cultura, leitura e educação que queiram, livre e criativamente, consultar, debater e apresentar suas ideias. Sejam todos muito bem-vindos! Vamos aprender juntos?
domingo, 3 de janeiro de 2016
sábado, 12 de dezembro de 2015
Feliz 83, Mãe Querida!
Que
o seu aaa-ni-ver-sá-rio... seja muuui- to
feliz...
Enquanto algumas pessoas fazem de tudo para tornarem-se
marcantes, outras agem naturalmente e tornam-se inesquecíveis.
O que dizer de uma mulher que ao dar a vida, entrega a
sua; ao lutar por seus filhos esquece-se de si mesma; ao desejar o sucesso
deles abandona os seus anseios; ao vibrar com suas vitórias, esquece seu
próprio mérito.
O que dizer de uma mãe que ao receber injustiças,
responde com seu amor; e que ao relembrar o passado faz um pedido: Deus proteja os meus filhos por toda a vida.
Que bom seria se Deus,
por um descuido, te fizesse eterna.
Todo
o meu amor
Todo
o meu carinho,
Zi
13/12/15
terça-feira, 30 de junho de 2015
Verbos Abundantes - Chego ou chegado?
Uma dúvida persiste entre os falantes de Português, no Brasil. Afinal, de acordo com as regras gramaticais, qual é a forma correta: "Ele tinha chego" ou "Ele tinha chegado"? Pra gente começar a conversa, precisamos entender por que alguns verbos assumem mais de uma forma de conjugação.
Já ouviu falar em verbos abundantes?
Segundo os principais dicionários e gramáticas, verbos abundantes são os verbos irregulares que apresentam mais de uma forma de conjugação equivalente para o mesmo tempo e pessoa. No caso de "chego" e "chegado", estamos falando de formas equivalentes de particípio.
E o fato gramatical é: o verbo CHEGAR não apresenta particípio abundante, ou seja, não possui duas formas equivalentes. Portanto, o correto é CHEGADO; e não chego. No caso que citamos no início deste texto, o adequado é "Ele tinha CHEGADO".
Mas por que tanta gente acaba usando construções como "Ele tinha chego"?
Como verificamos, alguns verbos possuem formas equivalentes. No caso do particípio, são abundantes os verbos: expulsar, pagar, ganhar e salvar, por exemplo. Por essa razão, são aceitas as construções: "Ele foi expulso da escola" e "O boleto foi pago".
Então, por que o desvio gramatical acontece? Um dos prováveis motivos é o de que o falante faz analogia (comparação) ao termo e emprega a mesma forma em outros verbos similares. Se eu digo, "ele tinha salvo o arquivo" (correto), posso dizer, também, "ele tinha chego em casa" (incorreto).
Se eu digo, "O projeto foi aceito pela diretoria" (correto), vou dizer "Ele tinha trago os sapatos" (incorreto). Pela simples comparação, o usuário faz novas construções que, inicialmente, não existem na gramática.
E tem outro detalhe: uma das formas do particípio é igual ao presente do indicativo. Veja só:
Eu trago quem quiser na minha casa. (correto: presente do indicativo)
Ele tinha trago à festa todos os amigos. (erro: particípio do verbo “trazer” - não abundante)
Ele tinha trago à festa todos os amigos. (erro: particípio do verbo “trazer” - não abundante)
Verifique alguns exemplos de verbos abundantes que possuem duas formas de particípio:
- ACENDER - acendido, aceso
- ACEITAR - aceitado, aceito
- CORRIGIR - corrigido, correto
- ELEGER - elegido, eleito
- EXPULSAR: expulsado, expulso
- ENTREGAR - entregado, entregue
- EXTINGUIR - extinguido, extinto
- FIXAR - fixado, fixo
- FRITAR - fritado, frito
- LIMPAR - limpado, limpo
- PRENDER: prendido, preso
- SALVAR: salvado, salvo
- SOLTAR: soltado, solto
Percebemos, por meio da analogia, a formação de novas construções. Fique atento às duas formas de particípio aceitas pela gramática. Saber analisar as características brasileiras do Português é muito importante. E ter o conhecimento das normas vigentes, também.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Não Perdi Nada
Não foi perda de tempo, como generalizou o Gregório em sua coluna de hoje (27/10/2014) na FSP.(http://bit.ly/1FQ6PZY)
Participei de algumas discussões políticas recentemente [talvez uma dezena], nas proximidades das eleições presidenciais de 2014. Assisti integralmente a cerca de 80% dos debates da televisão, com exceção ao último do segundo turno, do qual apenas pude ver o replay dos “melhores momentos” – na valiosa internet. Foram umas vinte horas atento a isso.
Empreguei outras tantas (horas) em leitura de jornais, sites, colunas aleatórias e revistas – de todos os “lados”. Sim, não há publicação idônea – vivamos com isso! Viajei, por fim, 1.400km em dois turnos, para exercer meu direito-dever; foram cerca de dezessete horas na empreitada dos trajetos, enfrentando as filas e votando.
Não perdi nada, não. Não perdi tempo. Não perdi os votos. Não perdi amigos. Não perdi a linha em nenhum momento. A (minha) esperança, aquela de sempre, só ruiu quando a primeira parcial foi revelada, pouco depois das 20h, mostrando uma diferença pequena (50,99% x 49,01%) a favor da situação, já com mais de 90% da apuração encaminhada. O número surgiu aos olhos, no aplicativo do TSE para celulares (20s antes da TV!), como um murro, bem dado, na boca do meu estômago. Nauseei, mas era preciso respirar. Acompanhei o restante do escrutínio, F5 detrás de F5, até a consagração do eleito – ou reeleita, mais precisamente.
Vitória incontestável. Éramos mais 142 milhões de votantes; 30 milhões dos quais (21%!) não apertaram o verde ontem. Democracia se fazendo lei, apesar da ausência de um em cada cinco brasileiros. Pelos dados, vê-se que a região Sudeste contribuiu decisivamente para o resultado. Chorem, esperneiem, revoltem-se. Os números são o que são.
As publicações digitais que sucederam a confirmação da reeleição da presidente, feita pelo TSE perto das 21h, merecem um capítulo de um livro – se não (em) vários deles – por algum cientista político ou estudioso de sociopolítica e comportamento humano. Alguém que possa ir até as zonas mais abissais do pensamento de seres humanos, especialmente daqueles que se revelaram extremamente cruéis e impiedosos. Tremenda falta de esportividade, para arrematar meu diagnóstico. Espécimes que, quem sabe, deveriam ser desclassificadas do reino e espécie a que um dia foram catalogados. Assim como os bandidos que depredaram a sede da revista Veja, e por pleno merecimento!
O que se viu nas redes sociais (extensão de nossas vidas reais e que, por isso, representam quem somos) foi, pra mim, apavorante.
Um ódio desmedido, uma série de inverdades encimadas por impropérios chulos, onde xenofobia era “arroz com feijão”. Acusações de ambas as partes, um festival de boçalidade. Havia excesso de ego e escassez de oxigênio – vital ao raciocínio. Gente incitando violência e até… o impeachment* da presidente reeleita. Quem acha que ganhou, por falta de lucidez. Quem acha que perdeu, por despeito.
*Não que não possa ocorrer, diga-se. Mas antes, é preciso que o congresso se sinta ameaçado. Até lá, há um bom caminho.
Imaginem: algumas dessas pessoas cogitaram separações geográficas no país, através… de um muro! Outras alegaram não ter mais orgulho da nação e não mais querer viver por essas bandas. Entendo o sentimento, a decepção e a derrota. A incivilidade, não. E tampouco compartilho do ódio ou da forma com a qual eles foram revelados. Estou tão ou mais descontente com o resultado do que eles, mas não há como compactuar com tamanha irascibilidade. Tudo era dicotomizado, como se assim pudesse ser. Reduziam-se, inaptamente, o entendimento e a explicação de fenômenos complexos ao conteúdo de “uma linha”, por vezes mal escrita. A generalização a desserviço do mundo – e de forma desencorajadora. Nota mental: há ainda um Everest de coisas a serem ensinadas às minhas filhas.
Mais da metade do país (representado aqui pelos que compareceram às urnas) se mostrou desconfortável e, logo, contra a situação. Somando-se os votos brancos, os nulos e os contrários à reeleição, foram 58 milhões de “confirma” não precedidos do número 13. Precedidos dele, 54 milhões. Mensagem de abrangência e importância inquestionáveis, dando conta de que a maioria da população não é conivente e não está feliz, entre outros, com a corrupção e a ineficiência econômica do país. Conceder voto ao partido que tem parte da liderança presa e que, segundo se apura, foi o maior aparelhador do Estado é – de fato – prá lá de preocupante. Há mais: até 2018, o partido dos trabalhadores terá nomeado, entre outros cargos, dez dos onze ministros do STJ, passando a reinar também no órgão judiciário máximo da nação. Uma lástima não termos promovido a troca do comando, cujas consequências são desconhecidas e amedrontadoras. O mesmo se aplica para o monopólio instalado no governo do estado de São Paulo.
Mesmo assim, não acho correto nem consigo julgar o voto das pessoas sem sê-las. Parece óbvio, mas não é; ainda que eu não entenda ou não concorde com elas. Sinto-me incapaz de fazê-lo sem considerar o que elas consideraram e sem, “polianamente”, sofrer o que elas sofrem [usando a acepção neutra do verbo sofrer]. O único que eu conseguiria fazer seriam análises simples de algumas relações entre os fatores regionais, a possível influência das pesquisas nos resultados, o “quem-sabe” poder dos debates e o temido alcance das mídias sobre as pessoas. Correlações que busquei entender, mas elas não são o objetivo desta argumentação.
Não conseguiria fazer aqui também críticas à igreja ou às milícias (leiam o texto do Gregório), sem ser do ou viver no Rio de Janeiro. O resultado em Minas Gerais é outra análise complicadíssima, frente à qual me sinto um cego tateando uma bula qualquer.
Na manhã seguinte ao resultado, acordei triste, um gosto amargo na boca, em uma espécie de depressão pós-pleito; batizei-a logo de DPP. Quisera que ela fosse fruto apenas da derrota do ‘meu’ candidato. Porém, a anos-luz disso, ela nasce e cresce exponencialmente na revelação da incapacidade de compreensão, diálogo e da postura desprezível de alguns brasileiros conhecidos (meus).
Definitivamente, no meu caso e apesar da ressaca moral, não perdi nada, Gregório.
[Guilherme Carloni, Out’14]
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Adeus ao Tio Nege
Não há um vocábulo sequer que minimize o pesar de uma perda. É um momento extremamente solitário, que
requer espaço para a tristeza, espaço para algo que não tem remédio e acontece, de vez em
quando, com todos nós.
A lei da entropia continua “linha
dura”: tudo
lentamente se desgasta, o corpo enfraquece, os anos deixam marcas, as doenças
nos tiram, irrefreavelmente, nosso capital vital. É a lei da vida que inclui a
morte.
Há
momentos que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio.
Morremos um pouco, cada vez que perdemos um ente querido. E como era querido
esse meu tio!
De repente ele se foi. Foi morar com
Deus. Deixou esse mundo para ocupar o melhor dos lugares, que deve ser
reservado a quem tudo deu e fez para ganhá-lo. Partiu, mas será sempre lembrado
pela vontade de vencer, por seu gosto pela vida, e, principalmente, pela
alegria com a qual saudava àqueles a quem amava, com todo o carinho que a eles
dirigia.
Pensei em registrar aqui algo significativo, como, por exemplo, os felizes momentos nas incontáveis viagens que fizemos por esse país. Nas praias, com toda a nossa família, o pão quentinho e o café da manhã eram, religiosamente, garantidos por sua ‘conta’. Da Praia Grande a Manaus, do Rio de Janeiro a Brasília, de Guarapari a Florianópolis, lá estava ele, sempre tão presente e prestativo,, em todos os momentos da nossa vida. Nunca esquecerei o prazer dessa companhia.
Há exatos dois meses, quando o vi pela última vez, passamos momentos tão alegres, que ainda causam-me muita emoção. Levarei comigo, todas as palavras, as mais doces lembranças, incontáveis conselhos, sorrisos pacificadores e um real aprendizado do amor incondicional.
Guardarei para sempre o seu semblante humilde , o seu jeito brando, sua presença amiga e todos os seus ensinamentos de tio, padrinho, amigo, confidente, irmão, por muitas vezes pai, parceiro, companheiro, um GRANDE HOMEM, que para sempre será.
Creio verdadeiramente, que Deus o escolheu como companheiro, porque somente os filhos especiais se tornam anjos celestiais.
Acolha-o no teu reino de paz, Senhor, como uma oração
de gratidão, por ter feito dele, uma das grandes alegrias da minha vida.
Jamais te esquecerei, meu querido tio Nege.
Profundamente sensibilizada.
Zilda Carloni
01.01.2014
Zilda Carloni
01.01.2014
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Homenagem aos meus pais
Hoje, 28/06/2013, é dia de
comemorar algo muito especial: é o dia de um casal diamantado: Emilio Carloni e
Salima Elias Carloni. Eles iniciaram uma história que começou há 60 anos, com a
celebração de um belo matrimônio. Os encantos daquele dia não se apagaram,
continuam até hoje e nos mostram o quanto é belo saber cultivar o amor.
Hoje é
dia de desejar-lhes felicidades na grandeza desse momento sem igual: Bodas de Diamante!
É fácil imaginar como deve ter
sido lá no início: uma simples aproximação, talvez um sonho distante, um
despretensioso namoro; depois, o noivado e o casamento. Um lugar encantado
acolhia parentes, amigos e convidados. Todos, alegremente, cobriam o casal, com
orações e com os mais sinceros votos de felicidades.
Sessenta anos de convivência
formam várias histórias que o tempo jamais apaga. Certamente, foram muitos os
momentos importantes em meio a tantas dificuldades.
Sessenta anos de matrimônio, que marca
admirável! Poucos, na vida, têm a oportunidade de comemorar, com alegria e
saúde, esse inesquecível acontecimento. Ele demonstra o quanto valeu manter a
serenidade, a firmeza e a determinação para enfrentar a vida. Hoje, podemos
perceber no brilho do olhar de ambos, o sentimento de felicidade pela sabedoria
de terem preservado tão grande amor. Fica o exemplo; nenhum outro acontecimento
envolvendo vidas humanas é tão significativo como esse.
A vocês, meus pais, desejo que a
paz contagie as demais gerações, a fim de que elas possam seguir esse belo
exemplo de união como um legado indispensável à prática do amor na vida a dois.
Parabéns!!
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Portão 11
Salão de embarque.
Um casal
dialoga.
Segunda-feira
[muito] cedo.
Ela não
tira férias há três anos.
Por
cinquenta minutos.
Espero o
primeiro voo.
Ela
chegou primeiro.
Antes do
que eu, inclusive.
Toma suco
de laranja.
Falam da
contratação dele, prestes a cumprir um ano.
Vestes
informais.
Sapato
preto com brilhos dourados.
Bebo
água.
Ele traja
jeans e camisa do dia-a-dia corporativo.
E trouxe
um terno embalado.
Ela,
alguns quilos de sobrepeso.
Come uma
salada de frutas.
E tem
formação green belt.
Confiro
meus e-mails.
Trabalha
um pro outro.
Ele pra
ela.
Sentados
estamos.
Ele é
diretor.
Casado.
Dela, não
se pode afirmar.
Em uma
empresa farmacêutica.
Vamos
para Cali.
Ela usa
dois celulares e um tablet.
Cuidam de
compliance.
Ele tem
problema nos óculos.
Não é na
Schering.
Não é na
Merck.
Ele veio
da Merck.
Ele tem
“crianças” e não viajarão no Carnaval.
Ele fala
mais que ela.
Não é na
Sigma.
Ela gosta
da Bahia.
Nem na
Solvay.
Ele,
Gustavo.
Uns 38.
Ela,
Cris.
Cris, só
Cris ou redução de outro?
Aparenta
35.
Observar
sem ser notado.
Reveladora
e divertida arte.
Última chamada.
O portão
11 nos engoliu.
@GuiCarloni Fev/2013
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Quebra-vento
Torta de maçã acompanha o seus pedidos?
Lembro até hoje. Quando era criança [bem entendido, idade cronológica], os carros possuíam um item de série muito útil, chamado quebra-vento. Para os mais novos, o artefato em questão era um segmento vertical (se assim puder ser descrito) instalado nos vidros laterais dos automóveis. Tinham por função não permitir que, com o carro em movimento e as janelas abertas, a entrante massa de ar atingisse os rostos do motorista e/ou seu passageiro da frente. Utilíssimos em dias de chuva, quando apenas aquelas pequenas partes podiam ser abertas, mantendo secos os ocupantes do bólido. Importante salientar que nessa época, os carros não tinham ar condicionado. Também eram ótimos para quem tinha pai, mãe ou algum fumante no veículo. Algumas senhoras usavam seu trinco para pendurar a bolsa, mas deve ser boato e não interfere na continuidade aqui.
Sem fazer qualquer pesquisa e com reduzidas chances de erro, posso afirmar que este item foi cobrado como opcional em seu momento áureo, mesmo que tacitamente. No Brasil. Pela indústria automobilística nacional. Ah, sim, por ignorar a situação de fora daqui, este texto tem apenas o Brasil como território-aplicação. Um dia, inadvertidamente, eles simplesmente deixaram de existir. Os carros nunca mais foram fabricados com quebra-ventos. Provavelmente, por inadequação ao design trend de nossos dias ou por corte de custos e simplificação do portfólio produtivo. Ou por tudo isso junto. E não há qualquer evidência ou relato de que os preços sofreram qualquer redução depois dessa medida.
É bem verdade que o nível de consumo geral vivido hoje é superior ao de qualquer época anterior. A disponibilidade de recursos financeiros e a homogeneização do poder de compra também crescem há, pelo menos, três décadas por aqui. Tamanha avidez por bens leva as pessoas a, fatalmente, comprar coisas das quais não necessariamente precisam. Ou a pagar preços sem analisá-los profundamente. Torna-se relativamente fácil então, num cenário assim, por parte dos criadores de necessidades - os marqueteiros - a inclusão de quebra-ventos em cada pequena ou grande coisa que por eles é (re)inventada.
Quem toma café espresso sabe. Ou você compra o combinado café + biscoitinho + água com gás ou você não toma deste café. E, mesmo se não houver qualquer interesse pelos adicionais água e biscoito (e suas variações: mini pão de queijo, casca de laranja com açúcar, sequilho, pastilhas de chocolate, waffer (!), pequeno pedaço de brownie ou até – já vivi – uma mini bola de sorvete!), você será obrigado a pagar pelo conjunto. Já inflacionou o suficiente. E foi incorporado ao hábito das pessoas. Ao meu também.
Um amigo fez observação similar para o que está acontecendo com as varandas dos apartamentos. Alguém criou a sacada gourmet que, por princípio, é fantástica. Útil. Prática. Versátil. Incorpora algo das casas aos apartamentos. Um show de ideia. Mas, tente encontrar um apartamento em construção que não tenha uma varanda com churrasqueira, espaço pra mesa, cadeiras, pontos de rede etc. Virou tarefa árdua e aumentou o preço cobrado pelo metro quadrado. Até para quem é vegetariano ou macrobiótico e não come churrasco.
Outro exemplo interessante é o que aconteceu com as televisões a cabo. É mais difícil contratar um plano que forneça apenas alguns canais de TV, do que cancelar um plano com a Empresa contratada. Ou você compra tevê + internet + telefone fixo (...) ou fica com os enlatados nos canais abertos. Outra constatação: nas grandes redes de lanchonetes, cobra-se mais caro por um sanduíche desacompanhado do que se, junto a ele, o comensal aceitar e pagar pela jornada plena, envolvendo batatas fritas, bebida, sobremesa, brinquedos e outros.
Medidas como essa do quebra-vento não deveriam ser tomadas antes de uma pesquisa de opinião. Seria de mui bom grado se todos pudessem enxergar essas iniciativas da indústria como algo repugnante, e unidos, pudéssemos evitar a instalação de quebra-ventos no que ainda não tem. Do contrário, continuaremos pagando (cada vez) mais por aquilo que não pedimos, mesmo que isso signifique ficarmos livres do vento na cara.
[@GuiCarloni, Jan’13]
Lembro até hoje. Quando era criança [bem entendido, idade cronológica], os carros possuíam um item de série muito útil, chamado quebra-vento. Para os mais novos, o artefato em questão era um segmento vertical (se assim puder ser descrito) instalado nos vidros laterais dos automóveis. Tinham por função não permitir que, com o carro em movimento e as janelas abertas, a entrante massa de ar atingisse os rostos do motorista e/ou seu passageiro da frente. Utilíssimos em dias de chuva, quando apenas aquelas pequenas partes podiam ser abertas, mantendo secos os ocupantes do bólido. Importante salientar que nessa época, os carros não tinham ar condicionado. Também eram ótimos para quem tinha pai, mãe ou algum fumante no veículo. Algumas senhoras usavam seu trinco para pendurar a bolsa, mas deve ser boato e não interfere na continuidade aqui.
Sem fazer qualquer pesquisa e com reduzidas chances de erro, posso afirmar que este item foi cobrado como opcional em seu momento áureo, mesmo que tacitamente. No Brasil. Pela indústria automobilística nacional. Ah, sim, por ignorar a situação de fora daqui, este texto tem apenas o Brasil como território-aplicação. Um dia, inadvertidamente, eles simplesmente deixaram de existir. Os carros nunca mais foram fabricados com quebra-ventos. Provavelmente, por inadequação ao design trend de nossos dias ou por corte de custos e simplificação do portfólio produtivo. Ou por tudo isso junto. E não há qualquer evidência ou relato de que os preços sofreram qualquer redução depois dessa medida.
É bem verdade que o nível de consumo geral vivido hoje é superior ao de qualquer época anterior. A disponibilidade de recursos financeiros e a homogeneização do poder de compra também crescem há, pelo menos, três décadas por aqui. Tamanha avidez por bens leva as pessoas a, fatalmente, comprar coisas das quais não necessariamente precisam. Ou a pagar preços sem analisá-los profundamente. Torna-se relativamente fácil então, num cenário assim, por parte dos criadores de necessidades - os marqueteiros - a inclusão de quebra-ventos em cada pequena ou grande coisa que por eles é (re)inventada.
Quem toma café espresso sabe. Ou você compra o combinado café + biscoitinho + água com gás ou você não toma deste café. E, mesmo se não houver qualquer interesse pelos adicionais água e biscoito (e suas variações: mini pão de queijo, casca de laranja com açúcar, sequilho, pastilhas de chocolate, waffer (!), pequeno pedaço de brownie ou até – já vivi – uma mini bola de sorvete!), você será obrigado a pagar pelo conjunto. Já inflacionou o suficiente. E foi incorporado ao hábito das pessoas. Ao meu também.
Um amigo fez observação similar para o que está acontecendo com as varandas dos apartamentos. Alguém criou a sacada gourmet que, por princípio, é fantástica. Útil. Prática. Versátil. Incorpora algo das casas aos apartamentos. Um show de ideia. Mas, tente encontrar um apartamento em construção que não tenha uma varanda com churrasqueira, espaço pra mesa, cadeiras, pontos de rede etc. Virou tarefa árdua e aumentou o preço cobrado pelo metro quadrado. Até para quem é vegetariano ou macrobiótico e não come churrasco.
Outro exemplo interessante é o que aconteceu com as televisões a cabo. É mais difícil contratar um plano que forneça apenas alguns canais de TV, do que cancelar um plano com a Empresa contratada. Ou você compra tevê + internet + telefone fixo (...) ou fica com os enlatados nos canais abertos. Outra constatação: nas grandes redes de lanchonetes, cobra-se mais caro por um sanduíche desacompanhado do que se, junto a ele, o comensal aceitar e pagar pela jornada plena, envolvendo batatas fritas, bebida, sobremesa, brinquedos e outros.
Medidas como essa do quebra-vento não deveriam ser tomadas antes de uma pesquisa de opinião. Seria de mui bom grado se todos pudessem enxergar essas iniciativas da indústria como algo repugnante, e unidos, pudéssemos evitar a instalação de quebra-ventos no que ainda não tem. Do contrário, continuaremos pagando (cada vez) mais por aquilo que não pedimos, mesmo que isso signifique ficarmos livres do vento na cara.
[@GuiCarloni, Jan’13]
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
“O meu amigo...”
"O meu amigo..."
Pronto! Chegou o fim do ano. E, com ele, invariavelmente, vem toda a parafernália que condecora os sentimentos de ‘tchau, ano corrente’ e ‘benvindo, ano próximo’. Quem já me leu [perdão!] dissertando sobre o período Natal/Réveillon sabe que estou longe de ser um entusiasta das Festas. Não há nada que, honestamente, por três décadas e meia, haja me convencido a destacar Dezembro na dúzia de meses, nem a considerar os dias 24, 25, 31 e/ou o 1° Jan de alguma forma mais importantes do que seus três outros centos e meio de irmãos. Todos com suas 24 horas e alguns minutos. Sem muita pesquisa antropológica que explique suas razões e origens, é no pacote do fim de ano que surgem os amigos ocultos, amigos secretos e as variações mais modernas como o amigo da onça ou inimigo oculto. Há forma mais ignóbil de celebrar alguma coisa? Existe maneira mais impessoal de declarar ao seu sorteado o quanto você o considera? Se não, vejamos. Tudo começa com uma [ligeira ou declarada] coação. Sim, desconheço quem entre voluntariamente nessas ondas. Os que as organizam, estejam certos, o fazem também por coação. Ou por convenção social. Ou pra ser o bacana da turma. O que, no limite, é tudo a mesma coisa. Em seguida vem a fase do sorteio. Este pode ser feito à moda tradicional, com os nomes dos participantes lançados em papeizinhos e embaralhados em uma urna, geralmente improvisada; quando não dentro das mãos chacoalhantes de algum “voluntário”. Feita opção por este modo vintage, o sorteio é quase sempre executado na presença da maioria. Pode ser em algum bar. Ouvem-se gritos inexplicáveis a cada nome descoberto. Na última década, entretanto, vê-se um aumento considerável do sorteio em modo virtual. Encurta distâncias e, quiçá, os tempos. Os sites que oferecem este serviço (!) garantem que [i] você jamais sorteará seu próprio nome e [ii] ninguém conhecerá (pelo site) o resultado, até o dia da revelação. Obviedades que não interessam muito aos eleitores high tech. Se o pleito escolhido é então do tipo virtual, os gritos não são ouvidos e cada participante recebe um email com o nome do seu amigo oculto. Muitas vezes é depois do sorteio que se estipula um preço para os presentes. Há exceções e muita discussão. Trata-se de um limite sugerido para o valor máximo a ser gasto por cada membro, na tentativa de – de alguma forma – homogeneizar a ‘qualidade’ dos mimos. O valor mínimo, importante, fica a cargo do bom senso de cada um (e dos sentimentos mútuos também). Uma medida controversa, pode-se dizer. Se por um lado ela evita que um bom presente seja compensado com um par de meias marrons, um CD d’O Rappa ou outra tranqueira, por outro, não dá muita margem para que os participantes realmente queridos possam ganhar belos presentes. Mas é a regra do jogo. E, joga quem quer. Todos às compras. O momento doravante denominado REVELAÇÃO beira o insuportável. Diz a tradição da brincadeira que, antes de se revelar seu sorteado, cada participante deve se apossar da palavra e dar dicas para que os demais possam tentar adivinhar de quem se trata. Quem aqui não tem traumas infantis do momento que antecede a sua vez de dizer “o meu amigo secreto...”? Depois do terceiro ou quarto nome descoberto, originalidade e graça já migraram pro Sul. É muito simpático observar também que, seja nas confraternizações de empresas ou nas familiares, nem sempre o sorteado é um grande apreciado daquele que o sorteou. Aqui, sim, aqui e precisamente nesse lugar, reside um dos grandes males da humanidade “moderna”: a falsidade consciente. Seja em nome da coação, da aceitação sócio-corporativa e/ou da cara de pau, dão-se presentes, beijos e abraços como se merecidos fossem. Percebam. Rabugices à parte, se o foco estiver nos atos de dar e receber presentes, infiramos: não se aproveita muito dessas ocasiões. Se é gente não muito conhecida/querida, para que presentes? Não bastaria uma celebração rasa? Do contrário, por que cada um só pode manifestar seu agrado a UM sorteado? E por que nessa época? É como se existisse um momento de atração fatal onde todas as diferenças se apagassem. Tudo em nome da troca de um ano pelo outro, tão valiosa para muitos.
[GuiCarloni / dez 2012]
Pronto! Chegou o fim do ano. E, com ele, invariavelmente, vem toda a parafernália que condecora os sentimentos de ‘tchau, ano corrente’ e ‘benvindo, ano próximo’. Quem já me leu [perdão!] dissertando sobre o período Natal/Réveillon sabe que estou longe de ser um entusiasta das Festas. Não há nada que, honestamente, por três décadas e meia, haja me convencido a destacar Dezembro na dúzia de meses, nem a considerar os dias 24, 25, 31 e/ou o 1° Jan de alguma forma mais importantes do que seus três outros centos e meio de irmãos. Todos com suas 24 horas e alguns minutos. Sem muita pesquisa antropológica que explique suas razões e origens, é no pacote do fim de ano que surgem os amigos ocultos, amigos secretos e as variações mais modernas como o amigo da onça ou inimigo oculto. Há forma mais ignóbil de celebrar alguma coisa? Existe maneira mais impessoal de declarar ao seu sorteado o quanto você o considera? Se não, vejamos. Tudo começa com uma [ligeira ou declarada] coação. Sim, desconheço quem entre voluntariamente nessas ondas. Os que as organizam, estejam certos, o fazem também por coação. Ou por convenção social. Ou pra ser o bacana da turma. O que, no limite, é tudo a mesma coisa. Em seguida vem a fase do sorteio. Este pode ser feito à moda tradicional, com os nomes dos participantes lançados em papeizinhos e embaralhados em uma urna, geralmente improvisada; quando não dentro das mãos chacoalhantes de algum “voluntário”. Feita opção por este modo vintage, o sorteio é quase sempre executado na presença da maioria. Pode ser em algum bar. Ouvem-se gritos inexplicáveis a cada nome descoberto. Na última década, entretanto, vê-se um aumento considerável do sorteio em modo virtual. Encurta distâncias e, quiçá, os tempos. Os sites que oferecem este serviço (!) garantem que [i] você jamais sorteará seu próprio nome e [ii] ninguém conhecerá (pelo site) o resultado, até o dia da revelação. Obviedades que não interessam muito aos eleitores high tech. Se o pleito escolhido é então do tipo virtual, os gritos não são ouvidos e cada participante recebe um email com o nome do seu amigo oculto. Muitas vezes é depois do sorteio que se estipula um preço para os presentes. Há exceções e muita discussão. Trata-se de um limite sugerido para o valor máximo a ser gasto por cada membro, na tentativa de – de alguma forma – homogeneizar a ‘qualidade’ dos mimos. O valor mínimo, importante, fica a cargo do bom senso de cada um (e dos sentimentos mútuos também). Uma medida controversa, pode-se dizer. Se por um lado ela evita que um bom presente seja compensado com um par de meias marrons, um CD d’O Rappa ou outra tranqueira, por outro, não dá muita margem para que os participantes realmente queridos possam ganhar belos presentes. Mas é a regra do jogo. E, joga quem quer. Todos às compras. O momento doravante denominado REVELAÇÃO beira o insuportável. Diz a tradição da brincadeira que, antes de se revelar seu sorteado, cada participante deve se apossar da palavra e dar dicas para que os demais possam tentar adivinhar de quem se trata. Quem aqui não tem traumas infantis do momento que antecede a sua vez de dizer “o meu amigo secreto...”? Depois do terceiro ou quarto nome descoberto, originalidade e graça já migraram pro Sul. É muito simpático observar também que, seja nas confraternizações de empresas ou nas familiares, nem sempre o sorteado é um grande apreciado daquele que o sorteou. Aqui, sim, aqui e precisamente nesse lugar, reside um dos grandes males da humanidade “moderna”: a falsidade consciente. Seja em nome da coação, da aceitação sócio-corporativa e/ou da cara de pau, dão-se presentes, beijos e abraços como se merecidos fossem. Percebam. Rabugices à parte, se o foco estiver nos atos de dar e receber presentes, infiramos: não se aproveita muito dessas ocasiões. Se é gente não muito conhecida/querida, para que presentes? Não bastaria uma celebração rasa? Do contrário, por que cada um só pode manifestar seu agrado a UM sorteado? E por que nessa época? É como se existisse um momento de atração fatal onde todas as diferenças se apagassem. Tudo em nome da troca de um ano pelo outro, tão valiosa para muitos.
[GuiCarloni / dez 2012]
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