terça-feira, 28 de outubro de 2014

Não Perdi Nada

Não foi perda de tempo, como generalizou o Gregório em sua coluna de hoje (27/10/2014) na FSP.(http://bit.ly/1FQ6PZY)
Participei de algumas discussões políticas recentemente [talvez uma dezena], nas proximidades das eleições presidenciais de 2014. Assisti integralmente a cerca de 80% dos debates da televisão, com exceção ao último do segundo turno, do qual apenas pude ver o replay dos “melhores momentos” – na valiosa internet. Foram umas vinte horas atento a isso.
Empreguei outras tantas (horas) em leitura de jornais, sites, colunas aleatórias e revistas – de todos os “lados”. Sim, não há publicação idônea – vivamos com isso! Viajei, por fim, 1.400km em dois turnos, para exercer meu direito-dever; foram cerca de dezessete horas na empreitada dos trajetos, enfrentando as filas e votando.
Não perdi nada, não. Não perdi tempo. Não perdi os votos. Não perdi amigos. Não perdi a linha em nenhum momento. A (minha) esperança, aquela de sempre, só ruiu quando a primeira parcial foi revelada, pouco depois das 20h, mostrando uma diferença pequena (50,99% x 49,01%) a favor da situação, já com mais de 90% da apuração encaminhada. O número surgiu aos olhos, no aplicativo do TSE para celulares (20s antes da TV!), como um murro, bem dado, na boca do meu estômago. Nauseei, mas era preciso respirar. Acompanhei o restante do escrutínio, F5 detrás de F5, até a consagração do eleito – ou reeleita, mais precisamente.
Vitória incontestável. Éramos mais 142 milhões de votantes; 30 milhões dos quais (21%!) não apertaram o verde ontem. Democracia se fazendo lei, apesar da ausência de um em cada cinco brasileiros. Pelos dados, vê-se que a região Sudeste contribuiu decisivamente para o resultado. Chorem, esperneiem, revoltem-se. Os números são o que são.
As publicações digitais que sucederam a confirmação da reeleição da presidente, feita pelo TSE perto das 21h, merecem um capítulo de um livro – se não (em) vários deles – por algum cientista político ou estudioso de sociopolítica e comportamento humano. Alguém que possa ir até as zonas mais abissais do pensamento de seres humanos, especialmente daqueles que se revelaram extremamente cruéis e impiedosos. Tremenda falta de esportividade, para arrematar meu diagnóstico. Espécimes que, quem sabe, deveriam ser desclassificadas do reino e espécie a que um dia foram catalogados. Assim como os bandidos que depredaram a sede da revista Veja, e por pleno merecimento!
O que se viu nas redes sociais (extensão de nossas vidas reais e que, por isso, representam quem somos) foi, pra mim, apavorante.
Um ódio desmedido, uma série de inverdades encimadas por impropérios chulos, onde xenofobia era “arroz com feijão”. Acusações de ambas as partes, um festival de boçalidade. Havia excesso de ego e escassez de oxigênio – vital ao raciocínio. Gente incitando violência e até… o impeachment* da presidente reeleita. Quem acha que ganhou, por falta de lucidez. Quem acha que perdeu, por despeito.
*Não que não possa ocorrer, diga-se. Mas antes, é preciso que o congresso se sinta ameaçado. Até lá, há um bom caminho.
Imaginem: algumas dessas pessoas cogitaram separações geográficas no país, através… de um muro! Outras alegaram não ter mais orgulho da nação e não mais querer viver por essas bandas. Entendo o sentimento, a decepção e a derrota. A incivilidade, não. E tampouco compartilho do ódio ou da forma com a qual eles foram revelados. Estou tão ou mais descontente com o resultado do que eles, mas não há como compactuar com tamanha irascibilidade. Tudo era dicotomizado, como se assim pudesse ser. Reduziam-se, inaptamente, o entendimento e a explicação de fenômenos complexos ao conteúdo de “uma linha”, por vezes mal escrita. A generalização a desserviço do mundo – e de forma desencorajadora. Nota mental: há ainda um Everest de coisas a serem ensinadas às minhas filhas.
Mais da metade do país (representado aqui pelos que compareceram às urnas) se mostrou desconfortável e, logo, contra a situação. Somando-se os votos brancos, os nulos e os contrários à reeleição, foram 58 milhões de “confirma” não precedidos do número 13. Precedidos dele, 54 milhões. Mensagem de abrangência e importância inquestionáveis, dando conta de que a maioria da população não é conivente e não está feliz, entre outros, com a corrupção e a ineficiência econômica do país. Conceder voto ao partido que tem parte da liderança presa e que, segundo se apura, foi o maior aparelhador do Estado é – de fato – prá lá de preocupante. Há mais: até 2018, o partido dos trabalhadores terá nomeado, entre outros cargos, dez dos onze ministros do STJ, passando a reinar também no órgão judiciário máximo da nação. Uma lástima não termos promovido a troca do comando, cujas consequências são desconhecidas e amedrontadoras. O mesmo se aplica para o monopólio instalado no governo do estado de São Paulo.
Mesmo assim, não acho correto nem consigo julgar o voto das pessoas sem sê-las. Parece óbvio, mas não é; ainda que eu não entenda ou não concorde com elas. Sinto-me incapaz de fazê-lo sem considerar o que elas consideraram e sem, “polianamente”, sofrer o que elas sofrem [usando a acepção neutra do verbo sofrer]. O único que eu conseguiria fazer seriam análises simples de algumas relações entre os fatores regionais, a possível influência das pesquisas nos resultados, o “quem-sabe” poder dos debates e o temido alcance das mídias sobre as pessoas. Correlações que busquei entender, mas elas não são o objetivo desta argumentação.
Não conseguiria fazer aqui também críticas à igreja ou às milícias (leiam o texto do Gregório), sem ser do ou viver no Rio de Janeiro. O resultado em Minas Gerais é outra análise complicadíssima, frente à qual me sinto um cego tateando uma bula qualquer.
Na manhã seguinte ao resultado, acordei triste, um gosto amargo na boca, em uma espécie de depressão pós-pleito; batizei-a logo de DPP. Quisera que ela fosse fruto apenas da derrota do ‘meu’ candidato. Porém, a anos-luz disso, ela nasce e cresce exponencialmente na revelação da incapacidade de compreensão, diálogo e da postura desprezível de alguns brasileiros conhecidos (meus).
Definitivamente, no meu caso e apesar da ressaca moral, não perdi nada, Gregório.
[Guilherme Carloni, Out’14]

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Adeus ao Tio Nege


Não há um vocábulo sequer que minimize o pesar de uma perda.  É um momento extremamente solitário, que requer espaço para a tristeza, espaço para algo que não tem remédio e acontece, de vez em quando, com todos nós.

A lei da entropia continua “linha dura”: tudo lentamente se desgasta, o corpo enfraquece, os anos deixam marcas, as doenças nos tiram, irrefreavelmente, nosso capital vital. É a lei da vida que inclui a morte.

Há momentos que somos tomados por uma enorme sensação de inutilidade, de vazio. Morremos um pouco, cada vez que perdemos um ente querido. E como era querido esse meu tio!

De repente ele se foi. Foi morar com Deus. Deixou esse mundo para ocupar o melhor dos lugares, que deve ser reservado a quem tudo deu e fez para ganhá-lo. Partiu, mas será sempre lembrado pela vontade de vencer, por seu gosto pela vida, e, principalmente, pela alegria com a qual saudava àqueles a quem amava, com todo o carinho que a eles dirigia.

Pensei em registrar aqui algo significativo, como, por exemplo, os felizes momentos nas incontáveis viagens que fizemos por esse país. Nas praias, com toda a nossa família, o pão quentinho e o café da manhã eram, religiosamente, garantidos por sua ‘conta’. Da Praia Grande a Manaus, do Rio de Janeiro a Brasília, de Guarapari a Florianópolis, lá estava ele, sempre tão presente e prestativo,, em todos os momentos da nossa vida. Nunca esquecerei o prazer dessa companhia.

Há exatos dois meses, quando o vi pela última vez, passamos momentos tão alegres, que ainda causam-me muita emoção. Levarei comigo, todas as palavras, as mais doces lembranças, incontáveis conselhos, sorrisos pacificadores e um real aprendizado do amor incondicional.

Guardarei para sempre o seu semblante humilde , o seu jeito brando, sua presença amiga e todos os seus ensinamentos de tio, padrinho, amigo, confidente, irmão, por muitas vezes pai, parceiro, companheiro, um GRANDE HOMEM, que para sempre será.

Creio verdadeiramente, que Deus o escolheu como companheiro, porque somente os filhos especiais se tornam anjos celestiais.
Acolha-o no teu reino de paz, Senhor, como uma oração de gratidão, por ter feito dele, uma das grandes alegrias da minha vida.

Jamais te esquecerei, meu querido tio Nege.


Profundamente sensibilizada.
Zilda Carloni
01.01.2014

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Homenagem aos meus pais



Hoje, 28/06/2013, é dia de comemorar algo muito especial: é o dia de um casal diamantado: Emilio Carloni e Salima Elias Carloni. Eles iniciaram uma história que começou há 60 anos, com a celebração de um belo matrimônio. Os encantos daquele dia não se apagaram, continuam até hoje e nos mostram o quanto é belo saber cultivar o amor.
Hoje é dia de desejar-lhes felicidades na grandeza desse momento sem igual: Bodas de Diamante!


É fácil imaginar como deve ter sido lá no início: uma simples aproximação, talvez um sonho distante, um despretensioso namoro; depois, o noivado e o casamento. Um lugar encantado acolhia parentes, amigos e convidados. Todos, alegremente, cobriam o casal, com orações e com os mais sinceros votos de felicidades.


Sessenta anos de convivência formam várias histórias que o tempo jamais apaga. Certamente, foram muitos os momentos importantes em meio a tantas dificuldades. 


Sessenta anos de matrimônio, que marca admirável! Poucos, na vida, têm a oportunidade de comemorar, com alegria e saúde, esse inesquecível acontecimento. Ele demonstra o quanto valeu manter a serenidade, a firmeza e a determinação para enfrentar a vida. Hoje, podemos perceber no brilho do olhar de ambos, o sentimento de felicidade pela sabedoria de terem preservado tão grande amor. Fica o exemplo; nenhum outro acontecimento envolvendo vidas humanas é tão significativo como esse.


A vocês, meus pais, desejo que a paz contagie as demais gerações, a fim de que elas possam seguir esse belo exemplo de união como um legado indispensável à prática do amor na vida a dois. Parabéns!!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Portão 11


Salão de embarque.
Um casal dialoga.
Segunda-feira [muito] cedo.
Ela não tira férias há três anos.
Por cinquenta minutos.
Espero o primeiro voo.
Ela chegou primeiro.
Antes do que eu, inclusive.
Toma suco de laranja.
Falam da contratação dele, prestes a cumprir um ano.
Vestes informais.
Sapato preto com brilhos dourados.
Bebo água.
Ele traja jeans e camisa do dia-a-dia corporativo.
E trouxe um terno embalado.
Ela, alguns quilos de sobrepeso.
Come uma salada de frutas.
E tem formação green belt.
Confiro meus e-mails.
Trabalha um pro outro.
Ele pra ela.
Sentados estamos.
Ele é diretor.
Casado.
Dela, não se pode afirmar.
Em uma empresa farmacêutica.
Vamos para Cali.
Ela usa dois celulares e um tablet.
Cuidam de compliance.
Ele tem problema nos óculos.
Não é na Schering.
Não é na Merck.
Ele veio da Merck.
Ele tem “crianças” e não viajarão no Carnaval.
Ele fala mais que ela.
Não é na Sigma.
Ela gosta da Bahia.
Nem na Solvay.
Ele, Gustavo.
Uns 38.
Ela, Cris.
Cris, só Cris ou redução de outro?
Aparenta 35.
Observar sem ser notado.
Reveladora e divertida arte.
Última chamada.
O portão 11 nos engoliu.


@GuiCarloni Fev/2013

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Quebra-vento

                                                                Torta de maçã acompanha o seus pedidos?

Lembro até hoje. Quando era criança [bem entendido, idade cronológica], os carros possuíam um item de série muito útil, chamado quebra-vento. Para os mais novos, o artefato em questão era um segmento vertical (se assim puder ser descrito) instalado nos vidros laterais dos automóveis. Tinham por função não permitir que, com o carro em movimento e as janelas abertas, a entrante massa de ar atingisse os rostos do motorista e/ou seu passageiro da frente. Utilíssimos em dias de chuva, quando apenas aquelas pequenas partes podiam ser abertas, mantendo secos os ocupantes do bólido. Importante salientar que nessa época, os carros não tinham ar condicionado. Também eram ótimos para quem tinha pai, mãe ou algum fumante no veículo. Algumas senhoras usavam seu trinco para pendurar a bolsa, mas deve ser boato e não interfere na continuidade aqui.
Sem fazer qualquer pesquisa e com reduzidas chances de erro, posso afirmar que este item foi cobrado como opcional em seu momento áureo, mesmo que tacitamente. No Brasil. Pela indústria automobilística nacional. Ah, sim, por ignorar a situação de fora daqui, este texto tem apenas o Brasil como território-aplicação. Um dia, inadvertidamente, eles simplesmente deixaram de existir. Os carros nunca mais foram fabricados com quebra-ventos. Provavelmente, por inadequação ao design trend de nossos dias ou por corte de custos e simplificação do portfólio produtivo. Ou por tudo isso junto. E não há qualquer evidência ou relato de que os preços sofreram qualquer redução depois dessa medida.
É bem verdade que o nível de consumo geral vivido hoje é superior ao de qualquer época anterior. A disponibilidade de recursos financeiros e a homogeneização do poder de compra também crescem há, pelo menos, três décadas por aqui. Tamanha avidez por bens leva as pessoas a, fatalmente, comprar coisas das quais não necessariamente precisam. Ou a pagar preços sem analisá-los profundamente. Torna-se relativamente fácil então, num cenário assim, por parte dos criadores de necessidades - os marqueteiros - a inclusão de quebra-ventos em cada pequena ou grande coisa que por eles é (re)inventada.
Quem toma café espresso sabe. Ou você compra o combinado café + biscoitinho + água com gás ou você não toma deste café. E, mesmo se não houver qualquer interesse pelos adicionais água e biscoito (e suas variações: mini pão de queijo, casca de laranja com açúcar, sequilho, pastilhas de chocolate, waffer (!), pequeno pedaço de brownie ou até – já vivi – uma mini bola de sorvete!), você será obrigado a pagar pelo conjunto. Já inflacionou o suficiente. E foi incorporado ao hábito das pessoas. Ao meu também.
Um amigo fez observação similar para o que está acontecendo com as varandas dos apartamentos. Alguém criou a sacada gourmet que, por princípio, é fantástica. Útil. Prática. Versátil. Incorpora algo das casas aos apartamentos. Um show de ideia. Mas, tente encontrar um apartamento em construção que não tenha uma varanda com churrasqueira, espaço pra mesa, cadeiras, pontos de rede etc. Virou tarefa árdua e aumentou o preço cobrado pelo metro quadrado. Até para quem é vegetariano ou macrobiótico e não come churrasco.
Outro exemplo interessante é o que aconteceu com as televisões a cabo. É mais difícil contratar um plano que forneça apenas alguns canais de TV, do que cancelar um plano com a Empresa contratada. Ou você compra tevê + internet + telefone fixo (...) ou fica com os enlatados nos canais abertos. Outra constatação: nas grandes redes de lanchonetes, cobra-se mais caro por um sanduíche desacompanhado do que se, junto a ele, o comensal aceitar e pagar pela jornada plena, envolvendo batatas fritas, bebida, sobremesa, brinquedos e outros.
Medidas como essa do quebra-vento não deveriam ser tomadas antes de uma pesquisa de opinião. Seria de mui bom grado se todos pudessem enxergar essas iniciativas da indústria como algo repugnante, e unidos, pudéssemos evitar a instalação de quebra-ventos no que ainda não tem. Do contrário, continuaremos pagando (cada vez) mais por aquilo que não pedimos, mesmo que isso signifique ficarmos livres do vento na cara.
                                                                                                                                [@GuiCarloni, Jan’13]

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

“O meu amigo...”

                                                                           "O meu amigo..."
 
Pronto! Chegou o fim do ano. E, com ele, invariavelmente, vem toda a parafernália que condecora os sentimentos de ‘tchau, ano corrente’ e ‘benvindo, ano próximo’. Quem já me leu [perdão!] dissertando sobre o período Natal/Réveillon sabe que estou longe de ser um entusiasta das Festas. Não há nada que, honestamente, por três décadas e meia, haja me convencido a destacar Dezembro na dúzia de meses, nem a considerar os dias 24, 25, 31 e/ou o 1° Jan de alguma forma mais importantes do que seus três outros centos e meio de irmãos. Todos com suas 24 horas e alguns minutos. Sem muita pesquisa antropológica que explique suas razões e origens, é no pacote do fim de ano que surgem os amigos ocultos, amigos secretos e as variações mais modernas como o amigo da onça ou inimigo oculto. Há forma mais ignóbil de celebrar alguma coisa? Existe maneira mais impessoal de declarar ao seu sorteado o quanto você o considera? Se não, vejamos. Tudo começa com uma [ligeira ou declarada] coação. Sim, desconheço quem entre voluntariamente nessas ondas. Os que as organizam, estejam certos, o fazem também por coação. Ou por convenção social. Ou pra ser o bacana da turma. O que, no limite, é tudo a mesma coisa. Em seguida vem a fase do sorteio. Este pode ser feito à moda tradicional, com os nomes dos participantes lançados em papeizinhos e embaralhados em uma urna, geralmente improvisada; quando não dentro das mãos chacoalhantes de algum “voluntário”. Feita opção por este modo vintage, o sorteio é quase sempre executado na presença da maioria. Pode ser em algum bar. Ouvem-se gritos inexplicáveis a cada nome descoberto. Na última década, entretanto, vê-se um aumento considerável do sorteio em modo virtual. Encurta distâncias e, quiçá, os tempos. Os sites que oferecem este serviço (!) garantem que [i] você jamais sorteará seu próprio nome e [ii] ninguém conhecerá (pelo site) o resultado, até o dia da revelação. Obviedades que não interessam muito aos eleitores high tech. Se o pleito escolhido é então do tipo virtual, os gritos não são ouvidos e cada participante recebe um email com o nome do seu amigo oculto. Muitas vezes é depois do sorteio que se estipula um preço para os presentes. Há exceções e muita discussão. Trata-se de um limite sugerido para o valor máximo a ser gasto por cada membro, na tentativa de – de alguma forma – homogeneizar a ‘qualidade’ dos mimos. O valor mínimo, importante, fica a cargo do bom senso de cada um (e dos sentimentos mútuos também). Uma medida controversa, pode-se dizer. Se por um lado ela evita que um bom presente seja compensado com um par de meias marrons, um CD d’O Rappa ou outra tranqueira, por outro, não dá muita margem para que os participantes realmente queridos possam ganhar belos presentes. Mas é a regra do jogo. E, joga quem quer. Todos às compras. O momento doravante denominado REVELAÇÃO beira o insuportável. Diz a tradição da brincadeira que, antes de se revelar seu sorteado, cada participante deve se apossar da palavra e dar dicas para que os demais possam tentar adivinhar de quem se trata. Quem aqui não tem traumas infantis do momento que antecede a sua vez de dizer “o meu amigo secreto...”? Depois do terceiro ou quarto nome descoberto, originalidade e graça já migraram pro Sul. É muito simpático observar também que, seja nas confraternizações de empresas ou nas familiares, nem sempre o sorteado é um grande apreciado daquele que o sorteou. Aqui, sim, aqui e precisamente nesse lugar, reside um dos grandes males da humanidade “moderna”: a falsidade consciente. Seja em nome da coação, da aceitação sócio-corporativa e/ou da cara de pau, dão-se presentes, beijos e abraços como se merecidos fossem. Percebam. Rabugices à parte, se o foco estiver nos atos de dar e receber presentes, infiramos: não se aproveita muito dessas ocasiões. Se é gente não muito conhecida/querida, para que presentes? Não bastaria uma celebração rasa? Do contrário, por que cada um só pode manifestar seu agrado a UM sorteado? E por que nessa época? É como se existisse um momento de atração fatal onde todas as diferenças se apagassem. Tudo em nome da troca de um ano pelo outro, tão valiosa para muitos. 

[GuiCarloni / dez 2012]

domingo, 21 de outubro de 2012

Expressões Curiosas

 JURAR DE PÉS JUNTOS:
Mãe, eu juro de pés juntos que não fui eu.
A expressão surgiu através das torturas executadas pela Santa Inquisição, nas quais o acusado de heresias tinha as mãos e os pés amarrados (juntos) e era torturado pra dizer nada além da verdade.
Até hoje o termo é usado pra expressar a veracidade de algo que uma pessoa diz.

MOTORISTA BARBEIRO:

Nossa, que cara mais barbeiro!
No século XIX, os barbeiros faziam não somente os serviços de corte de cabelo e barba, mas também, tiravam dentes, cortavam calos, etc, e por não serem profissionais, seus serviços mal feitos geravam marcas.
A partir daí, desde o século XV, todo serviço mal feito era atribuído ao barbeiro, pela expressão "coisa de barbeiro".
Esse termo veio de Portugal, contudo a associação de "motorista barbeiro", ou seja, um mau motorista, é tipicamente brasileira..

TIRAR O CAVALO DA CHUVA:

Pode ir tirando seu cavalinho da chuva porque não vou deixar você sair hoje!
No século XIX, quando uma visita iria ser breve, ela deixava o cavalo ao relento em frente à casa do anfitrião e se fosse demorar, colocava o cavalo nos fundos da casa, em um lugar protegido da chuva e do sol.
Contudo, o convidado só poderia pôr o animal protegido da chuva se o anfitrião percebesse que a visita estava boa e dissesse: "pode tirar o cavalo da chuva".
Depois disso, a expressão passou a significar a desistência de alguma coisa.


À BEÇA:
O mesmo que abundantemente, com fartura, de maneira copiosa.
A origem do dito é atribuída às qualidades de argumentador do jurista alagoano Gumercindo Bessa, advogado dos acreanos que não queriam que o Território do Acre fosse incorporado ao Estado do Amazonas.

DAR COM OS BURROS N ' ÁGUA:

A expressão surgiu no período do Brasil colonial, onde tropeiros que escoavam a produção de ouro, cacau e café, precisavam ir da região Sul à Sudeste sobre burros e mulas.
O fato era que muitas vezes esses burros, devido à falta de estradas adequadas, passavam por caminhos muito difíceis e regiões alagadas, onde os burros morriam afogados.
Daí em diante o termo passou a ser usado pra se referir a alguém que faz um grande esforço pra conseguir algum feito e não consegue ter sucesso naquilo.

GUARDAR A SETE CHAVES:

No século XIII, os reis de Portugal adotavam um sistema de arquivamento de jóias e documentos importantes da corte através de um baú que possuía quatro fechaduras, sendo que cada chave era distribuída a um alto funcionário do reino.
Portanto eram apenas quatro chaves.
O número sete passou a ser utilizado devido ao valor místico atribuído a ele, desde a época das religiões primitivas.
A partir daí começou-se a utilizar o termo "guardar a sete chaves" pra designar algo muito bem guardado..


OK: 
A expressão inglesa "OK" (okay), que é mundialmente conhecida pra significar algo que está tudo bem, teve sua origem na Guerra da Secessão, no EUA.
Durante a guerra, quando os soldados voltavam para as bases sem nenhuma morte entre a tropa, escreviam numa placa
"0 killed" (nenhum morto), expressando sua grande satisfação, daí surgiu o termo "OK".

ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS:

Existe uma história não comprovada, de que após trair Jesus, Judas enforcou-se em uma árvore sem nada nos pés, já que havia posto o dinheiro que ganhou por entregar Jesus dentro de suas botas.
Quando os soldados viram que Judas estava sem as botas, saíram em busca delas e do dinheiro da traição.
Nunca ninguém ficou sabendo se acharam as botas de Judas.
A partir daí surgiu à expressão, usada pra designar um lugar distante, desconhecido e inacessível.

PENSANDO NA MORTE DA BEZERRA:

A história mais aceitável para explicar a origem do termo é proveniente das tradições hebraicas, onde os bezerros eram sacrificados para Deus como forma de redenção de pecados.
Um filho do rei Absalão tinha grande apego a uma bezerra que foi sacrificada.
Assim, após o animal morrer, ele ficou se lamentando e pensando na morte da bezerra.
Após alguns meses o garoto morreu.

PARA INGLÊS VER:

A expressão surgiu por volta de 1830, quando a Inglaterra exigiu que o Brasil aprovasse leis que impedissem o tráfico de escravos.
No entanto, todos sabiam que essas leis não seriam cumpridas, assim, essas leis eram criadas apenas "pra inglês ver". Daí surgiu o termo.

RASGAR SEDA:

A expressão que é utilizada quando alguém elogia grandemente outra pessoa, surgiu através da peça de teatro do teatrólogo Luís Carlos Martins Pena.
Na peça, um vendedor de tecidos usa o pretexto de sua profissão pra cortejar uma moça e começa a elogiar exageradamente sua beleza, até que a moça percebe a intenção do rapaz e diz:
"Não rasgue a seda, que se esfiapa".

O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER: 

Em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D`Argent fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel.
Foi um sucesso da medicina da época, menos pra Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via.
Disse que o mundo que ele imaginava era muito melhor.
Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos.
O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano.
Angel ganhou a causa e entrou pra história como o cego que não quis ver.

ANDA À TOA:

Toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra.
Um navio que está à toa é o que não tem leme nem rumo, indo pra onde o navio que o reboca determinar.

QUEM NÃO TEM CÃO, CAÇA COM GATO:

Na verdade, a expressão, com o passar dos anos, se adulterou.
Inicialmente se dizia quem não tem cão caça como gato, ou seja, se esgueirando, astutamente, traiçoeiramente, como fazem os gatos.

DA PÁ VIRADA:

A origem do ditado é em relação ao instrumento, a pá.
Quando a pá está virada pra baixo, voltada pro solo, está inútil, abandonada decorrentemente pelo Homem vagabundo, irresponsável, parasita.

NHENHENHÉM: 

Nheë, em tupi, quer dizer falar.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, os indìgenas não entendiam aquela falação estranha e diziam que os portugueses ficavam a dizer "nhen-nhen-nhen".

VAI TOMAR BANHO: 

Em "Casa Grande & Senzala", Gilberto Freyre analisa os hábitos de higiene dos índios versus os do colonizador português.
Depois das Cruzadas, como corolário dos contatos comerciais, o europeu se contagiou de sífilis e de outras doenças transmissíveis e desenvolveu medo ao banho e horror à nudez, o que muito agradou à Igreja.
Ora, o índio não conhecia a sífilis e se lavava da cabeça aos pés nos banhos de rio, além de usar folhas de árvore pra limpar os bebês e lavar no rio as redes nas quais dormiam.
Ora, o cheiro exalado pelo corpo dos portugueses, abafado em roupas que não eram trocadas com freqüência e raramente lavadas, aliado à falta de banho, causava repugnância aos índios.
Então os índios, quando estavam fartos de receber ordens dos portugueses, mandavam que fossem "tomar banho".

ELES QUE SÃO BRANCOS QUE SE ENTENDAM:

Esta foi das primeiras punições impostas aos racistas, ainda no século XVIII.
Um mulato, capitão de regimento, teve uma discussão com um de seus comandados e queixou-se a seu superior, um oficial português.
O capitão reivindicava a punição do soldado que o desrespeitara.
Como resposta, ouviu do português a seguinte frase:
"Vocês que são pardos, que se entendam".
O oficial ficou indignado e recorreu à instância superior, na pessoa de dom Luís de Vasconcelos (1742-1807), 12° vice-rei do Brasil.
Ao tomar conhecimento dos fatos, dom Luís mandou prender o oficial português que estranhou a atitude do vice-rei.
Mas, dom Luís se explicou:
Nós somos brancos, cá nos entendemos.


A DAR COM O PAU:
O substantivo "pau" figura em várias expressões brasileiras.
Esta expressão teve origem nos navios negreiros.
Os negros capturados preferiam morrer durante a travessia e, pra isso, deixavam de comer.
Então, criou-se o "pau de comer" que era atravessado na boca dos escravos e os marinheiros jogavam sapa e angu pro estômago dos infelizes, a dar com o pau.
O povo incorporou a expressão.

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA, TANTO BATE ATÉ QUE FUR
A:

Um de seus primeiros registros literário foi feito pelo escritor latino Ovídio ( 43 a .C.-18 d.C), autor de célebres livros como "A arte de amar "e "Metamorfoses", que foi exilado sem que soubesse o motivo.
Escreveu o poeta:
"A água mole cava a pedra dura".
É tradição das culturas dos países em que a escrita não é muito difundida formar rimas nesse tipo de frase pra que sua memorização seja facilitada.
Foi o que fizeram com o provérbio, portugueses e brasileiros

Mãe Querida,

Há quase três anos, 30 de abril de 2017, vivenciamos juntas a triste partida do seu grande e inseparável companheiro, meu amado pai. Aos pr...